pablo picasso1881 - 1973

Figura lendária, Picasso é o artista mais famoso e profundamente original que o século XX produziu. Sensual e carismático, viveu uma turbulenta vida amorosa, que afetou os rumos de sua arte.

Gostava de chamar as mulheres — uma de suas grandes fontes de inspiração — de “deusas ou capachos”. Com sua obra revolucionária dominou a vanguarda artística até a Segunda Guerra Mundial e poucos escaparam à sua influência. O brilhantismo inventivo de Picasso abrangeu muitos estilos e diferentes meios, mas talvez sua contribuição mais significativa tenha sido a criação do Cubismo, que abriu caminho para a arte abstrata. Embora sua influência tenha declinado após 1945, Picasso prosseguiu trabalhando compulsivamente nas décadas de 50 e 60.

Desde sua morte, aos 91 anos, sua fama permanece inalterada.

O Gênio da Arte Moderna

E o mais influente artista do século XX. Dono de uma incrível vitalidade, sua vida foi pontilhada de episódios marcantes — três guerras e inúmeras experiências amorosas — que determinaram os rumos de sua arte.

Pablo Ruiz Picasso nasceu em Plaza de la Merced, Málaga, Espanha, a 25 de outubro de 1881. Foi um parto difícil e o bebê teve de receber baforadas de charuto pelas narinas para forçar suas primeiras respirações. Único menino da família, com bela aparência e talento precoce, logo se viu alvo da adulação e do afeto que o acompanhariam pela vida afora.

Seu pai, José Ruiz Blasco, era um artista medíocre. Para ganhar a vida, ensinava desenho e era curador do museu local. Tanto ele como a mãe do garoto, Maria Picasso López, encorajavam as ambições artísticas do filho ao reconhecerem seu imenso talento precoce.

Picasso nunca desejou fazer nada além de pintar e recusava-se a permanecer na escola, a menos que pudesse levar consigo uma das pombas do pai e alguns pincéis. Don José o incentivou a desenhar segundo diretrizes da arte acadêmica. Anos mais tarde, já velho, ao analisar uma exposição de desenhos de crianças, ele diria: “Quando eu tinha essa idade sabia desenhar como Rafael, mas precisei de uma vida inteira para aprender a desenhar como as crianças”.

Em 1895, a família transferiu-se para Barcelona, à época um centro literário e artístico receptivo às idéias da vanguarda européia. Foi ali que começou sua verdadeira educação artística.

Os meses que passou na acadêmica Madri (durante o inverno de 1897/98) não foram nada proveitosos. Em Barcelona, freqüentou classes adiantadas na Academia de La Lonja, produzindo uma série de retratos tradicionais e amplas composições figurativas. Logo rompeu com a tradição acadêmica. Para isso contribuíram os oito meses de 1898 que passou desenhando, trabalhando e comendo ao lado dos camponeses da aldeia de Horta de San Juan, na Catalunha, quando se recuperava de uma escarlatina.

UM AMBIENTE ESTIMULANTE

Picasso desabrochou artisticamente na atmosfera intelectual e boêmia da cidade de Barcelona. Costumava reunir-se com intelectuais e artistas no Eis Quatre Gats, um café com o jeito peculiar do Quartier Latin parisiense. Tarde da noite, após intermináveis discussões filosóficas e artísticas, Picasso e amigos iam ao encontro das prostitutas do Barrio Chino, a animada zona do meretrício de Barcelona.

Apesar do que a cidade oferecia, todo aspirante a artista almejava viver em Paris, centro cultural da vanguarda na virada do século. Picasso chegou à capital francesa em 1900 e nos três anos seguintes transitava entre Paris e Barcelona. Passava dias estudando as salas de arte gregas, romanas e egípcias do Louvre, bem como as obras de Bonnard, Maurice Denis eToulouse-Lautrec nos cafés e bordéis de Montmartre. Conheceu o poeta e jornalista Max Jacob, que se tornaria uma amizade duradoura. Embora Picasso conhecesse apenas rudimentos da língua francesa, Max Jacob o introduziu na poesia de Baudelaire, Rimbaud, Verlaine e Mallarmé, abrindo-lhe horizontes culturais mais amplos.

Picasso e Max Jacob moraram juntos, dividindo uma cama, que Max usava de noite e Picasso durante o dia (costumava trabalhar à noite). Foi um período de extrema pobreza, frio e desespero. Muitos de seus desenhos tiveram de ser utilizados como material combustível para o aquecimento do quarto. Foram anos difíceis. Picasso ficou também profundamente deprimido com o suicídio de um velho amigo, Carlos Casagemas, em decorrência de um caso amoroso infeliz. Esse cotidiano trágico transparece nas telas mórbidas da fase azul (1901/05) — o primeiro estilo independente de Picasso —, quando utilizou párias da sociedade para pintar a pobreza, a cegueira, a alienação e o desespero em frias tonalidades de azul e cinza.

Foi preciso uma mulher escultural e bela para que as excêntricas figuras da fase azul desaparecessem. Tratava-se de Fernande Olivier, primeira ligação duradoura de Picasso. As pinturas desse período, conhecido como fase rosa (1905/06), com sua serenidade, tons cálidos e graciosa sensualidade, foram o resultado desse sentimento renovado de segurança. Picasso trabalhava arduamente durante a noite, indo dormir ao amanhecer, levantando-se para um banho e o café às 16 horas. As telas retratavam acrobatas e dançarinos, românticos arlequins (auto-retratos) e artistas circenses, inspirando-se em personagens do circo Medrano, ao qual ia assiduamente com Fernande Olivier.

Entre os freqüentadores do Bateau-Lavoir, em Montmartre, estavam artistas do porte de Gris, Derain, Vlaminck, Matisse e Braque, com quem Picasso desenvolveu o conceito do cubismo; os críticos Guillaume Apollinaire e André Salmon, juntamente com os colecionadores de arte Gertrude e Leo Stein, que compravam trabalhos de Picasso; e diversos marchands, entre os quais Daniel-Henry Kahnweiler. As pinturas da fase rosa venderam muito bem. Os dias difíceis pertenciam ao passado.

les demoiselles davignonAs Donzelas de Avignon (1907)

Em 1907 Picasso revolucionou o mundo da arte com As Donzelas de Avignon, retratando figuras num bordel. Com essa tela, Picasso contrariou 30 séculos da arte ocidental, harmonizando-a com uma nova visão do mundo. O artista vinha trabalhando no sentido de criar um estilo menos naturalista, mais geométrico. Descobrira, também, a escultura negra e polinésia que o conduziu ao uso de figuras totêmicas. As Donzelas de Avignon — marco do movimento cubista — chocou até mesmo seus amigos mais íntimos, inclusive Braque, que se sentiu atraído pelas inovações de Picasso.

A explosão de energia criativa presente em suas telas cubistas foi em certa medida detonada por Marcelle Humbert, uma nova mulher em sua vida, a quem ele rebatizou de “Eva” — seu “primeiro amor”. O relacionamento com Fernande tornava-se cada dia mais tenso e chegou a um final abrupto na primavera de 1912, quando o artista levou Eva para Avignon.

Braque e Picasso passaram a trabalhar juntos. Em Paris durante o inverno, e no campo durante o verão. Mas a deflagração da guerra em 1914 pôs fim a essa frutífera colaboração. Braque alistou-se, mas Picasso não, por ser estrangeiro na França e por suas idéias pacifistas. Outros amigos, inclusive Apollinaire e Derain, também se alistaram, e Picasso sentiu-se cada vez mais isolado e deprimido, encontrando dificuldade em trabalhar. Sua solidão completou-se com a morte de Eva, tuberculosa, em 1915.

paradeParade (1917)

Picasso foi salvo, em 1917, pelo poeta e cineasta Jean Cocteau, que o levou a Roma para desenhar o cenário e os figurinos de Parade, que Diaghilev estava encenando com os Balés Russos. Na capital italiana Picasso apaixonou-se por Michelangelo e Rafael e também por Olga Koklova, bailarina do corpo de baile de Diaghilev. Olga e Picasso casaram-se a 12 de julho de 1918. Incentivado por ela, o pintor se tornou um ar­tista da sociedade e, sucumbindo ao fascínio do grand-monde parisiense, mudou-se para um am­plo apartamento na Rue La Boètie — uma ele­gante região de Paris. Foi festejado por toda a alta sociedade, tornando-se a figura da moda nos salões. Gradativamente ia perdendo o contato com seus amigos boêmios.

Embora a estréia de Parade tenha sido um dra­mático fracasso, Picasso continuou a trabalhar com Diaghilev até 1924. Ao mesmo tempo produzia paisagens cubistas e naturezas-mortas; quando Olga engravidou, criou uma série de pinturas de mãe com filhos, além de nus voluptuosos. No dia 4 de fevereiro de 1921 nascia seu filho Paul.

tres dancarinasAs Três Dançarinas (1925)

Ao longo das décadas de 20 e 30, Picasso alterou diferentes estilos de pintura. Estava atento às novas correntes da arte moderna — Surrealismo, Expressionismo e pintura abstrata. Chegou até a ser aclamado por André Breton, em 1923, como o iniciador do Surrealismo. Mas Picasso era fundamentalmente contrário ao uso surrealista do irracional e do inconsciente. Nada o desviava da busca de novos meios de expressar a condição e a forma humanas. As Três Dançarinas foi a primeira tela a apresentar emoção violenta e distorção de figuras.

Essa tendência tem sido atribuída em parte ao seu casamento fracassado. Vivia cada vez mais insatisfeito com seu estilo de vida, e Olga se tornara irritadiça e ciumenta. Para fugir dos problemas, trancava-se em seu estúdio. O ciúme de Olga encontrou vazão quando Picasso iniciou, em 1927, um romance com Marie-Thérèse Walter, uma loira alta, de 17 anos. O casamento finalmente acabou quando Marie-Thérèse engravidou, em 1935, e Picasso pediu o divórcio. Mas, cidadão espanhol, conseguiu apenas uma separação legal. Olga, contudo, permaneceu no pano de fundo de sua vida até morrer, de câncer, no ano de 1955.

RELACIONAMENTOS COMPLICADOS

Tão logo Marie-Thérèse deu à luz uma menina, Maia, Picasso voltou ao seu estilo de vida boêmio e encontrou um novo amor em Dora Maar, uma fotógrafa amiga do poeta Paul Eluard. As duas mulheres tinham aversão uma à outra mas, aparentemente, Picasso apreciava bastante as cenas turbulentas entre ambas. Dora, no entanto, era uma temperamental depressiva e o relacionamento com Picasso destinava-se a ser tempestuoso. De 1936 em diante retratou-a inúmeras vezes, submetendo sua imagem às mais violentas distorções.

guernicaGuernica (1937)

Em 1936 começou a Guerra Civil Espanhola. e o artista apoiou o governo republicano contra a insurreição militar de Franco. Foi nomeado diretor do Museu do Prado e o governo encomendou um mural para o Pavilhão Espanhol da Exposição Internacional de Paris. A 26 de abril de 1937 os bombardeiros nazistas a serviço de Franco arrasaram a cidadezinha de Guernica, na região basca, deixando dois mil mortos e milhares de feridos. Picasso fez desse crime abjeto o tema para a encomenda, pintando Guernica, um libelo contra a opressão.

Durante a ocupação da França, anos mais tarde, Picasso dava aos nazistas que visitavam seu estúdio uma foto de Guernica como recordação. Mas, apesar de eles considerarem degenerada sua arte, criaram-lhe poucos problemas. Durante a guerra o artista deslocou-se inicialmente para a pequena Royan, retornando depois a Paris. Em 1943 conheceu a graciosa Françoise Gilot, de 21 anos. Esse novo envolvimento agravou o perturbado estado mental de Dora, causando-lhe um colapso nervoso.

Alegria de viverAlegria de viver (1946)

Com Françoise, Picasso encontrou uma paz transitória; expressou sua felicidade em telas como Alegria de Viver, com ninfas, sátiros e centauros dançantes. Findo o conflito mundial, estabeleceram-se de início em Antibes e depois na villa La Galloise, em Vallauris, onde dedicou- se à litografia e à cerâmica. Françoise, no entanto, detestava a falta de privacidade que reinava ali. Os dois filhos, Claude (nascido em 1947) e Paloma (nascida em 1949), não conseguiram uni-los e, em 1953, Françoise o abandonou. Ela reapareceu em cena por um breve período, em 1954, apenas para descobrir que Jacqueline Roque já tomara seu lugar. O casamento aconteceu em março de 1961, em Vallauris.

Jacqueline veio restaurar a paz perdida. Mas as obras dos anos 50 e 60, tecnicamente admiráveis, decaíram em termos de poder inventivo. Iniciou então séries de variações sobre obras- primas de Delacroix, Velázquez e Manet. Era um retorno ao passado.

Em Notre-Dame de Vie, a última casa que compartilham, Picasso vive uma reclusão voluntária, o que de modo nenhum enfraquece a lenda em torno de sua figura. Pelo contrário. Anos mais tarde, uma operação da próstata e da vesícula, além da visão deficiente, põe fim às suas atividades: ele morre a 8 de abril de 1973, consagrado como o mais influente pintor do século XX.

Uma verdade ainda hoje incontestável.

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