Sérvulo Esmeraldo

  • A fantasia estilizada dos sólidos

      

     As esculturas de Sérvulo Esmeraldo atraem sorrateiramente o olhar para um confronto entre a objetividade do visível da obra e um equilíbrio essencialmente subjetivo, enigmático. O inconsciente moderno se encarrega dos investimentos culturais destinados à sua apreensão e experimentação. Apesar da precisão quase matemática, a sensação e o devaneio não escapam, estão presentes, condensados na singularidade dos sólidos inspirados por um ideal (problemático) de perfeição e apropriação da luminosidade. Surgem para o olhar, soltas, emancipadas, mas foram inventadas fazendo parte de um sistema, de uma história. É preciso circular em torno delas para perceber suas sutilezas específicas.

     O artista trabalha a partir de poucas variações formais, mas intimamente entrosado com o fazer da arte, não só os materiais e a técnica utilizados como também os dados da história. Luz e espaço se articulam como resultado de uma experiência de trabalho, cada escultura é uma soma de volume e luz. Um silêncio estilizado e denso, resistente às falas e definições.

     Por trás desse equilíbrio quase imperturbável, existe um processo de saber obcecado em inventar, com os mais simples sólidos do universo da geometria, objetos/monumentos de arte que, além de conviver harmonicamente com a luz e a sombra, acentuam a paixão por uma espécie de “belo clássico”, livre de inquietações, um belo puro e destilado, próximo ao êxtase da perfeição. Momentos de humor.

  • Geometrias do sonho

    “O verdadeiro gravador começa sua obra num devaneio da vontade.”
    Gaston Bachelard

    A gravura de Sérvulo Esmeraldo segue um percurso em direção a uma tendência construtiva, se apropriando da geometria como tema de um cuidadoso trabalho manual, que inventa imagens simples para as divagações de quem as contempla com os olhos da imaginação. São gravuras que excitam a nossa capacidade de interrogar o destino geométrico de um singular repertório: linha, textura, cor, um espaço imaginário da poética e do pensamento. Algumas parecem desenhos para esculturas ou objetos, mas vivem a autonomia de sua bidimensionalidade, soltas, livres, num espaço de sonho e raciocínio.

    São construções puramente geométricas, principalmente as da última fase, que seduzem a nossa atenção. Não falam de nada, são imagens que nos colocam diante de problemas de ordem do sentimento e do rigor construtivo de uma técnica, como um saber indiscutível e incompreensível fora da experiência da mão e da sabedoria do olhar.

    A geometria termina onde o sonho começa. Superfícies marcadas pela mão e o pensar do artista, com economia na composição, nos traços, mas com uma pluralidade de significados que exigem do espectador a dedicação de um tempo destinado à fantasia e ao devaneio. Um olhar livre dos significados codificados pela vivência cotidiana.

    Diante dessas paisagens geométricas é preciso pensar e é preciso sonhar, são imagens que devolvem ao mundo alegrias perdidas.

    Acabo não falando do trabalho desse gravador (como se fosse possível falar de um obra de arte), a minha fala diz respeito às minhas obsessões diante dessas gravuras. Quando olhamos uma obra de arte, vemos também lembranças, inquietações, emoções, adormecidas no fundo de nos mesmos. Estas linhas e estas figuras ou sólidos geométricos criados pela ilusão da perspectiva das gravuras de Esmeraldo, provocam pensamentos e imaginações. Falar de uma obra de arte é sempre um paradoxo, ela vive e se alimenta em territórios de silêncio, a fala tangencia mas não a domina. O que nos resta então, é olhar com todos os olhos possíveis as gravuras desse artista.