Ricardo Viveiros

  • Cárcamo - As muitas faces de um artista único

    Ele pode ser apenas uma capa, as ilustrações ou todo o projeto de arte de um livro. Pode, também, ser a caricatura de alguma personalidade em jornal ou revista. Pode, ainda, ser um quadro à óleo ou uma aquarela no acervo de uma casa ou museu. Mas, seja em que forma de expressão for, ele é alguém que antes de criar emociona-se e, só assim, nos faz refletir sobre a importância da vida.

    Aos pés dos Andes, aonde o branco das neves eternas espeta o azul do céu, na Zona Rural da pequena Los Angeles, Sul do Chile, em meio a bosques de lariços e carvalhos e sob pôr do sol umedecido pelos ventos marinhos, nasceu Gonzalo Ivar Cárcamo Luna, em 8 de fevereiro de 1954. Era um daqueles dias quando amarelo e vermelho incendeiam o limite verde do horizonte nos domínios dos índios Mapuches. Às margens do Rio Bío-Bío, esses bravos guerreiros resistiram aos colonizadores por séculos, dando origem a pessoas éticas, corajosas e livres.

    Filho de camponeses e pai severo, exemplo de trabalho e persistência; mãe doce, apreciadora de arte e leitora de livros  o menino Cárcamo deu os primeiros passos em uma casa simples, mas com quadros nas paredes, pintados pela tia Tetey. Do lado de fora, paisagens marcantes: pomares, animais e carroças cujo o ranger das rodas somado às notas tiradas ao piano pela mãe criavam inesquecível sinfonia.

    REVELAÇÃO

    Foi ali, ao instintivamente delinear com o dedo na terra do chão as sombras dos cinco irmãos, que Cárcamo desenvolveu talento para deixar que a inspiração invada primeiro o coração, depois a mente. O menino descobriu bem cedo a força da luz na percepção da imagem. Assim, sempre emocionado, surgiu o desejo de mostrar o que percebia/sentia na mágica essência do existir.

    As revistas em quadrinhos traziam guerra e far west, ou eram da Disney. Com o irmão Carlos, recriava as histórias sem consciência do exercício que fazia para o futuro. Na escola, os cadernos tinham mais desenhos que matérias. Caricaturas dos professores, vez por outra, lhe davam um recreio forçado. Em casa, a tia pintora assinava "Seleções do Reader's Digest". A revista estampava aquarelas na capa. Com modestos recursos técnicos ele as copiava, o desafio era imenso.

    O avô materno tinha um moinho de trigo na cidade. Seus pais venderam as terras na Zona Rural, compraram o moinho e foram para Los Angeles. Cárcamo ajudava o pai a fazer a matéria prima do pão, ia à escola e, com frequência, desviava-se do caminho dos colegas rumo à praça para ir ao hotel ver exposições de quadros.

    EXÔDO

    Em 1974, entra na Universidade Técnica del Estado, campus de Concepción, em Arquitetura. Havia clima para desenvolver a prática da aquarela, os professores já não se aborreciam em serem caricaturados. Ao término do segundo ano, Cárcamo se encanta com Oscar Niemeyer. Decide mudar-se para o Brasil e aqui concluir o curso. Com ajuda da mãe vem, em 1976, para São Paulo, é hospedado por amigos na cidade de Santo André.

    Não consegue retomar o curso de Arquitetura, precisa trabalhar. Entra em uma agência de publicidade. Apaixona-se pelo Brasil, sua gente. Colabora com o jornal "Bagatela", impresso no "Diário do Grande ABC". Não para de pintar. Atua em produtoras de desenhos animados. Participa na produção do "Grilo Caetano", de Walbercy; trabalha nos estúdios de Daniel Messias e Cesar Sandoval (conhece Jorge Benedetti), todos mestres do gênero. Cárcamo fez curtas metragens para os estúdios Disney (pela HGN), em um emocionado reencontro com os personagens da sua infância.

    Mas, foi com Gauguin, Velasquez, Goya, Carot, Sorolla, Wyeth que Cárcamo aprendeu a penetrar na alma do ser humano, buscar o inconsciente e não apenas o visível. Sua arte é sempre nova, não há um traço básico que a identifique. Foi lendo a biografia de Gauguin, seu isolamento, e o livro "Expedição Kon-Tiki", de Thor Heyerdhal, que Cárcamo vai para a Ilha da Páscoa e fica quatro anos pintando. Produz 100 óleos que integram exposição itinerante do SESC-SP.

    ETERNIDADE

    De volta ao Brasil, Cárcamo mora na Bahia, expõe no Museu de Arte. Não encontra trabalho. Descobre o "Pasquim", encartado no "Jornal da Bahia". Escreve ao cartunista Jaguar, manda trabalhos e faz um apelo: diante da situação, iria volta para o Chile. Jaguar abre duas páginas na edição seguinte do jornal, elogia o artista e conclama o mercado a não deixa-lo voltar aos domínios do ditador Pinochet. Chovem convites. Cárcamo estava adotado pelo Brasil, reconhecido por seu grande talento.

    Trabalha para "Folha de S. Paulo", "O Estado de S. Paulo", "Visão", "Veja", "IstoÉ", "Época", "Carta Capital" e grandes editoras de livros. São cerca de 50 obras ilustradas (Machado de Assis, Gabriel García Márquez, Eça de Queiroz, Tolstói etc) e sete próprias. Seu livro "Modelo vivo, natureza morta" é obra referencial na literatura infantojuvenil. No Salão Internacional de Humor de Piracicaba, em 1987, foi premiado pela caricatura de Mãe Menininha do Gantois. Viveu um ano em Barcelona, viajou pela Europa visitando museus e colaborou com o diário "El País", levado por Loredano, também grande caricaturista.

    Cárcamo tem exposto, com sucesso, seus óleos e aquarelas no Brasil e no Exterior. São trabalhos que fogem às escolas e tendências, trazem as imagens do passado e do presente, sempre fundamentadas em excepcional técnica, emoção e muita qualidade. "Faço apenas o que a inspiração me pede para manifestar. Ter liberdade, ser autêntico ao expressar o sentimento é o valor maior da criação", diz Gonzalo Cárcamo, que trabalha e leciona em seu bucólico estúdio em Ilhabela, litoral Norte paulista.

    Ricardo Viveiros para a Revista Abigraf, em outubro de 2012.
  • Di Cavalcanti - Na penumbra ou nas cores, sempre o Brasil

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    Ele foi chargista, desenhista, pintor, muralista. Criou para gravura, tapeçaria e jóias. Exerceu o jornalismo e publicou dois livros. Ele é a maior expressão da arte brasileira comprometida com a realidade do País. Ele não foi um radical obsessivo, mas é apontado como mestre do Modernismo. Ele era apaixonado pela vida, pela alma do povo brasileiro.

    Como acontece nos casos de pessoas famosas que, por seus inegáveis méritos, passam de geração em geração ocupando o interesse de toda a sociedade, é muito difícil escrever novidades sobre Di Cavalcanti, artista plástico e escritor. Talvez, fosse interessante dizer que ele se chamava Emiliano. Ou melhor, como nem todos sabem, Emiliano de Albuquerque Mello. Um intelectual cuja imagem transcende a do eterno boêmio, homem simples encantado com a realidade das mulatas sensuais e dos malandros reais do carnaval carioca. Alguém que, na arte, “saboreava” frutas tropicais e “passeava” paisagens suburbanas como ninguém soube, antes ou depois dele, tão bem retratar numa linguagem muito própria, consolidada depois de experimentar influências como as de Picasso, Braque, Rivera.

     Emiliano, que quando caricaturista usava o pseudônimo de “Urbano”, ao iniciar a carreira de pintor passou a ser “Di Cavalcanti”. Ele não tinha medo do que era bom. Por isso, viveu e trabalhou intensamente. Cresceu na vida, como pessoa, e no trabalho, como profissional de uma arte sem limites, já que seu talento era múltiplo.

    Nascido no Rio de Janeiro em 6 de setembro de 1987, o artista não sabia que na aurora do século XX, o resto do mundo ainda desfrutava uma vida sob confortáveis e seguros valores do passado. Naquele tempo, a religião e o civismo ainda não haviam sofrido as frias transformações causadas pela primeira guerra mundial, pelo surgimento da grande aldeia em que se transformou o planeta com o rádio e a televisão. Tudo isso, sem falar das viagens aéreas que também encurtaram o mundo e o aparecimento da revolução comunista, que mudou conceitos e desafiou a burguesia.

    Di Cavalcanti iniciou seu trabalho artístico por volta dos 17 anos, fazendo charges de conteúdo político para a revista Fon-Fon. Sua arte, portanto, tem origens no Brasil. Surge questionando os nossos homens públicos, frente aos problemas do povo. A obra de Di torna-se, pela origem, referencial do clima da época e reflete as influências visuais que atingiam nossos artistas. Era uma fase de muitas transformações. Di, ainda no campo gráfico, faz a capa e as ilustrações para o livro “Ballada do Inforcado” de Oscar Wilde, traduzido e lançado no Brasil. As pranchas usadas no livro foram expostas no “Salão dos Humoristas”, no Rio de Janeiro, e causaram grande interesse pelo jovem artista e seu inovador trabalho. Os desenhos são sombrios, claramente simbolistas. Nota-se a influência do movimento Art-Nouveau que chegava até nós, vindo da Europa.

    Di começou a pintar em 1917, suas telas desse período são penumbristas como se pode constatar em algumas obras que se encontram na Pinacoteca do Estado e no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, ambos na capital paulista. Na tela “O Beijo” (acervo do MAC-USP), já com um tratamento mais colorido, apresenta o início da fase modernista do artista com imagens hipertrofiadas, reduzidas a simples mas expressivos fios. Nesse momento, o Modernismo começava a instigar a intelectualidade brasileira. No entanto, por aqui tudo acontecia num estado bruto da simples e direta procura de liberdade, diferentemente do que se passava na Europa. Lá o mesmo movimento contava com o respaldo das teorias de Nietzsche, Max, Freud, Bergson e outros importantes pensadores.

    O MODERNISMO

    O Rio de Janeiro, quando à época nele vivia Di Cavalcanti, era um lindo e animado balneário, possuidor de uma riquíssima burguesia que ainda somava alguns nobres remanescentes dos tempos imperiais. Não havia condições para nenhuma ruptura cultural. Já São Paulo, com o aristocrático empresariado obrigado a conviver com os milhares de operários imigrantes, era a cidade que oferecia melhor clima para, em suas terras, ser lançado o Modernismo. Além disso, os intelectuais de maior peso econômico também viviam na “paulicéia desvairada” de Mário de Andrade. O carioca Di previu tudo isso e, em 1921, mudou-se para São Paulo. Antes, porém, expôs a coleção de desenhos “Fantoches da Meia-Noite”, um olhar bem humorado sobre os tipos humanos da Lapa, reduto da boemia na “Cidade Maravilhosa”.

    Não foi ao acaso, portanto, na agitada livraria de Jacinto Silva durante exposição de Di Cavalcanti, que Graça Aranha, recém chegado da Europa e trazendo na bagagem muitas novidades, encampou e patrocinou a idéia do artista de realizar a “Semana de Arte Moderna”, que aconteceu em 1922. A bem da verdade, Di já havia sido o responsável direto pelo que se poderia denominar como o “estopim do movimento”, quando em 1917, visitou sua amiga Anita Malfatti e a entusiasmou a expor seus quadros. O que acabou acontecendo no final do mesmo ano, num espaço da Rua Líbero Badaró, no centro da capital paulista. A mostra causou impacto até então sem precedentes, tanto no público quanto na crítica. Estava lançada a semente do Movimento Modernista no Brasil.

    Antes mesmo de ir para a Europa, Di já havia evoluído sua arte. Como ele mesmo conta em um de seus livros, sobre esse momento: “Meu modernismo coloria-se do anarquismo cultural brasileiro e, se ainda claudicava, possuía o dom de nascer com os erros, a inexperiência e o lirismo brasileiros”. Essa consciência e um apurado espírito crítico, foram preponderantes para o crescimento interior do artista. Um legítimo animador cultural, Di revelou além de Anita Malfatti, também outros artistas como Victor Brecheret e Osvaldo Goeldi. O artista incentivava os jovens talentos a viajar, conhecer outras terras; isso aconteceu, por exemplo, também com Cícero Dias. Muito importante para a integração dos grupos carioca e paulista no Modernismo, foi a contribuição de Di Cavalcanti. Como o artista transitava com desenvoltura nas duas cidades, representava o canal de comunicação entre os seus participantes.

    Di vai para Paris de onde envia suas inspiradas crônicas para o “Correio da Manhã”, entre 1923 e 1925 (depois voltaria nos anos 30). Nesse novo período na França, o artista amadurece ainda mais sua técnica, assimila o cubismo e determina como principal a temática fundamentada no povo brasileiro, com destaque para a figura humana. Aliás, Di nunca aceitou que para ser um modernista deveria abrir-mão dos temas nacionais. Ao contrário, entendeu que deveria trata-los com modernidade. Daí surgiu o compromisso de usar modelos figurais representativos da vida brasileira, numa concepção artística cada vez mais suntuosa. Isso se pode conferir em uma de suas telas mais importantes: “Cinco Moças de Guaratinguetá” (Museu de Arte de São Paulo – MASP).

    A presença européia trouxe um novo significado à obra de Di Cavalcanti que, em seu livro de memórias, conta: “Dois acontecimentos marcaram a minha vida: conheci Picasso e assisti às comemorações fúnebres da morte de Lenine”. No Museu Nacional de Arte Moderna, em Paris, está um dos seus belos quadros “Cena Brasileira”, um dos frutos desse seu segundo período no Velho Mundo. Em 1953, Di conquista o prêmio de “Melhor Pintor Nacional”, junto com Alfredo Volpi, na II Bienal de São Paulo. Em 1956, leva o primeiro prêmio da Mostra de Arte Sacra, em Trieste, Itália. Em outubro de 1971, o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) realizou uma das mais interessantes retrospectivas da obra do artista.

    Di Cavalcanti morreu no Rio de Janeiro, em 26 de outubro de 1976. Suas obras estão nos principais museus do mundo, artista premiado internacionalmente. É o povo brasileiro, em sua essência, mostrado na penumbra ou sob a luz das cores de quem melhor soube retratar sua alma, não apenas sua beleza e sensualidade.

  • FANG - A suave força da arte

    Da China para o Brasil, e daqui para o mundo, a arte criada com equilíbrio, harmonia e liberdade para transmitir não mais do que o essencial. Arte silenciosa que grita emoção, arte suave e forte como uma âncora.

    Com o fim do século XVIII, as manobras estrangeiras para invadir comercialmente a China — incluindo ação estratégica dos ingleses que, em meados dos anos 1800, contrabandearam para lá o ópio indiano —, tornaram-se ainda mais agressivas deixando o país asiático em situação frágil diante dos interesses das potências ocidentais e do Japão. Nos anos 1900 eclodiram por todo o território chinês movimentos de reação à política imperialista dos "inimigos da Pátria".

    Han-Chen Fong, ainda bem jovem, foi um dos militantes que defenderam a China durante o fim da Dinastia Qing. Foi com apoio de corajosos estudantes e trabalhadores que, no limiar de um novo século, o partido nacionalista, Kuomintang, tomou o poder prometendo soberania e república. Nesse momento, diante de duvidosos rumos do movimento pelo qual havia arriscado sua vida, Fong afastou-se das armas e voltou aos livros escolares.

    Ao se mudar para o Japão, concluiu Engenharia e vislumbrava uma segura carreira profissional. Mas, diante dos rumos tomados com a Segunda Guerra Mundial, sua consciência não lhe permitiu seguir naquele país. Fong voltou a China, indo trabalhar na indústria papeleira, além de escrever e ilustrar livros técnicos. Casou já maduro e teve três filhos. Contraiu grave enfermidade que lhe deixou a mão direita defeituosa. Aos herdeiros, carinhosamente Fong mostrava seus desenhos, alguns de equipamentos navais. E gostava de lhes contar histórias que, à luz pálida e amarelada das lâmpadas, animava com a mão defeituosa criando sombras de animais nas paredes. Para completar o espetáculo, fazia o som imitando mágicas "conversas" entre cães e gatos.

    A MARCA

    O filho caçula — nascido em 1931 em Tongcheng, província chinesa de Anhui — um dia demonstrou curiosidade por uma âncora. O que era aquilo tão estranho? Fong explicou: "As âncoras têm muita personalidade. São modestas, silenciosas. O fundo do mar é um mundo cruel, e diante de qualquer ameaça da correnteza elas não mudam de posição". Estava determinado o futuro do menino: seria como uma âncora. Ainda mais porque aos 10 anos de idade perdeu o pai que, para época, era um homem moderno, sensível e culto ao despertar e incentivar no garoto o amor pela arte.

    Foi com o pai que o artista plástico Fang, nome artístico que adotou mais tarde, desenhou para sua existência uma trajetória baseada em ética, simplicidade e modéstia. Uma carreira produtiva, silenciosa e firme. Sem permitir que as adversidades, contra as quais viu o pai lutar de maneira sempre digna, o fizessem perder o rumo e o deixassem levar pelas correntezas do perigoso mar da vida. Desde a adolescência, conforme lhe sinalizou o pai, buscou aprender que o mundo pode ser recriado em imagens.

    Base do trabalho de Fang desde os 11 anos de idade, a arte chinesa embora sob históricos conflitos manteve-se fiel aos seus fundamentos: caligrafia, desenho e suavidade poética. Sempre com a mais pura emoção na busca da verdadeira essência de cada imagem. A importância em revelar o que os olhos da alma podem descobrir muito além do tema a ser retratado. Uma pintura que pode parecer decorativa. Mas, não é. Porque está impregnada de sensibilidade descoberta em cada volume, cor, traço revelado pela luz. Aliás, uma característica muito forte da arte oriental está nas sombras que falam.

    A BORBOLETA

    Em 1951, com a mãe e um irmão, Fang mudou-se para o Brasil, depois de viver por alguns anos em Suzhou, próximo a Xangai. Foi lá, em 1945, que ele iniciou os estudos de sumi-ê com o mestre Chang-Zenshen. Trata-se de uma técnica de pintura surgida na China no século II da Era Cristã, que harmoniza caligrafia e desenho, monocromática, cuja proposta é transmitir apenas o essencial. Sua realização, sempre em silêncio, exige estudo, prática, concentração e habilidade. Nela o artista transcende o real, passando o imaginário que está em sua alma na elegância do traço.

    Quando Fang aportou aqui, outros orientais também já haviam se fixado em terras brasileiras e eram nomes respeitados nas artes plásticas. Não sem antes, como a família dele fez no Paraná, trabalhar na agricultura. Em 1954, já morando em São Paulo, o jovem artista torna-se aluno do japonês Yoshiya Takaoka, com quem aprende pintura. Desse momento em diante, a carreira de Fang só registra conquistas. Seus trabalhos mereceram seguidas exposições individuais e coletivas em importantes museus e galerias, como também prêmios nacionais e internacionais. Fang lecionou na Faculdade de Belas Artes de São Paulo. Foram produzidos dois curtas-metragens sobre sua vida e obra: "Os caminhos de Fang" (1981) e "Chen Kong Fang" (2004).

    Fang, um apaixonado por este País, naturalizou-se brasileiro em 1961. Entretanto, por toda a vida manteve-se fiel às origens de seus ancestrais, bem como, honrou a memória de seus amados pais. Dedicado à arte, compartilhava o tempo livre com a esposa Akiko, os três filhos e o tai chi chuan. A pintura de Fang traz a simplicidade, beleza e qualidade técnica da milenar arte oriental, mas, também, um claro toque ocidental que lhe acrescentou o Brasil. Desde a delicadeza do sumi-ê até as cores fortes do tropicalismo no figurativo, passando por uma válida e rápida experiência no abstrato e até retornar às suaves imagens em tons pretos e brancos, o artista sempre foi livre em suas criações. Tão livre que se perguntou um dia: "Será o pintor semelhante a uma pobre borboleta?"

    A resposta não foi dada, e nem é necessária. Porque Fang se tornou borboleta ao sair do casulo da vida em novembro de 2012, deixando um rastro de suavidade e beleza. São quadros que podemos admirar nos acervos de museus e em coleções, no Brasil e no mundo, para descobrir que estamos ancorados na liberdade de viver e amar.

    Ricardo Viveiros para a "Revista Abigraf", em janeiro de 2013.
  • Fayga Ostrower - Só a arte mostra a força da existência

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    A arte é divina. A vida é humana. O artista é um ser divino que pode encantar o humano e, com o belo, produzir o milagre ateu da transformação. Porque o belo faz pensar o feio. E, assim, instiga a essência do ser e propõe mudanças em nome da felicidade.

    O poeta Carlos Drummond de Andrade, embora comedido em elogios, não se conteve diante da arte de Fayga Ostrower e disse num poema: “Fayga faz a forma flutuar e florir na pauta musicometálica”. Verdade. A artista, apaixonada pela música, em suas gravuras tirou do metal (além de outros meios) um impressionante ritmo, criando imagens que bailam despertando emoções, revelando um outro lado da vida. Em alguns momentos, o som do silêncio. A arte como algo divino, criado pelo homem — no entender da ateia Fayga, o único Deus.

    ALEGRO

    Nascida Faiga Perla Krakowski, em 1920, em Lódz, Polônia, primogênita de quatro filhos, enfrentou, ainda menina, o terror nazista. Sua mente guardou duras imagens, que geraram inabalável compromisso com a dignidade humana. Sem nenhum rancor. Pelo contrário, com a esperança de que apenas o ser humano pode resgatar e distribuir amor, que, muitas vezes, precisa esconder-se do ódio como um refugiado de guerra.

    Da Polônia para a Bélgica, caminhando em silêncio pelas florestas, e de lá para a América do Sul. Esta foi a saga da família judia fugindo à perseguição de Hitler. Fayga sempre foi ótima aluna, aprendeu várias línguas e taquigrafia, o que lhe ajudou no caminho e na chegada ao Brasil. Mesmo na terceira classe do navio, conseguiu um chocolate em troca de um retrato que fez do comandante. A primeira visão, ao se aproximar do Rio de Janeiro, foi a do Cristo Redentor: “Uma cruz flutuando no céu”, inacreditável.

    Os Krakowski passaram por uma pensão carioca e, depois, fixaram-se na cidade de Nilópolis, na sofrida Baixada Fluminense. Fayga precisou trabalhar para ajudar a família. Seu dia começava às 5 e nunca terminava antes das 21 horas. Ia e voltava de trem para a capital, onde conseguiu um emprego de auxiliar de escritório. A família, com o tempo, voltou ao Rio. Fayga, sempre aplicada, foi evoluindo na multinacional em que trabalhava. Matriculada na Associação de Belas-Artes, após o expediente na empresa, aprendia desenho. Entre 1939 e 40, conheceu o alemão Heinz Ostrower, também refugiado, com quem se casou. Historiador e filósofo, marxista convicto, Heinz era uma pessoa reservada e sensível. Tiveram dois filhos: Carl Robert (1949) e Anna Leonor (1952), a “Noni”.

    ADÁGIO

    Um par de goivas (instrumentos usados para criar xilogravuras) e um pedaço de linóleo proporcionaram as ações iniciais de Fayga no campo da gravura: ilustração de livros. “O Cortiço”, de Aluisio Azevedo, foi o primeiro de uma série. Um anúncio de jornal, em 1947, chamou a sua atenção: a Fundação Getúlio Vargas oferecia um curso de Artes Gráficas. “No curso eu me encontrei. Queria ser artista.” Foram seis meses de aulas diárias, de manhã à tarde.

    Fayga nunca se satisfez com descobertas, com prêmios. Sempre buscou mais. Ainda em 47, deixou o bem remunerado emprego fixo para iniciar corajosa carreira de artista plástica, professora e escritora. Seus primeiros trabalhos, xilos e gravuras em metal, saíram de uma prensa construída por ela e usada num estilo próprio. Tinha mãos capazes de promover grandes rupturas e transformações, a partir da crença na arte como essência da vida. No início, os temas eram figurativos, comprometidos com sua filosofia socialista. Um período expressionista, mas no qual a emoção e a técnica se harmonizavam com absoluta liberdade, respeitosa independência.

    Em sua primeira exposição individual, no Rio de Janeiro, com xilos e águas-fortes, Fayga explicou no catálogo da mostra como equilibrava estética com ética: “Toda boa arte traz uma mensagem do tempo em que é criada, além de uma mensagem de verdade e beleza humanas permanentes no percurso da existência do homem”. Um dos pontos altos de seu trabalho em gravura está na habilidade em usar as cores dominando os espaços e obtendo luminosidade. Sua arte nos obriga a olhar além do que vemos, como se cada obra fosse viva e pudesse, de repente, falar e nos surpreender.

    PRESTO

    Quando sua temática migrou para o abstracionismo (1954), a artista sofreu um patrulhamento ideológico. Foi acusada de estar traindo as causas sociais. Bobagem, radicalismos. Fayga evoluiu, soube dominar sua capacidade criativa quando deixou que seu trabalho fluísse mais. Assim, cumpriu a travessia para outra fase. Em 1955, partiu como bolsista para os Estados Unidos. Em Nova York, por um ano, tornou-se assídua frequentadora de museus, além de trabalhar em artes gráficas no Brooklyn Museum Art School. Poderia ter ficado para sempre. Suas gravuras levadas do Brasil foram expostas na respeitada galeria The Contemporaries e não lhe faltaram convites para lecionar. Mas, voltou.

    De 1955, e até hoje, a obra de Fayga mereceu notoriedade, de público e de crítica, fazendo-se presente em importantes acervos com gravuras e aquarelas, aqui e no Exterior. Em 1957, vieram a primeira viagem à Europa e a conquista de prêmios nas Bienais Internacionais de São Paulo e de Veneza. Depois, convites para exposições individuais na Holanda e na Argentina. A carreira tomou um rumo irreversível, alcançando crescente sucesso. Quando aconteceu o Golpe de 1964, instaurando a ditadura militar que vitimou o Brasil, Fayga estava vivendo nos EUA e lecionava no Spelman College, universidade para negros — uma época na qual o apartheid dominava aquele país.

    Fayga escreveu vários livros. Alguns, como o “Universos da Arte” (com mais de 20 edições), tornaram-se obras referenciais. Ela foi uma artista que também soube criar amigos, para toda a vida e além dela: o gravador Lívio Abramo, o poeta Murilo Mendes, o compositor Paulinho da Viola, o marido, os filhos e os netos são alguns exemplos. Seus amigos falam dela como se estivesse viva. E está! Mesmo depois de 2001, quando se tornou uma sonata de força e beleza gravada na memória de amigos e admiradores em todo o mundo.

  • Glauco Pinto de Moraes: a arte entre o sonho e a realidade.

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    As décadas de 1960 e 70 foram, no Brasil, marcadas pela rica produção de vários artistas que, no embalo da importância histórica da comunicação conceitual, criaram o que se convencionou chamar de novas figurações dentro do amplo universo da arte desmaterializada. Apareceram os hiper-realistas, os surrealistas fantásticos e, também, os adeptos da pop-art, entre outras manifestações e tendências de então.

    Muitas são as diferenças entre a criação de cada um dos artistas brasileiros que praticaram a pop-art àquela época. Entretanto, um aspecto constitui base comum a todos – é clara a influência desse movimento nascido inglês, recriado e realmente difundido a partir de Nova York, e que soube impor a sua marca de pioneirismo.

    Por outro lado, todas as obras do período da pop-art feitas aqui apresentam típica brasilidade na sua forma, estilo, linguagem e, em especial, temática, com a inclusão de elementos tropicalistas nas telas: frutas, animais, rostos populares, legítimos signos de imediata identificação com o “verderelo” de nossa terra.

    Houve, em determinados artistas, também a consciente opção por um discurso político na mensagem contida em suas obras. O Golpe Militar de 1964, e suas lamentáveis conseqüências que vitimaram o País com a instauração de uma violenta ditadura, exigiu de muitos criadores a necessidade de combater a opressão, fugir à censura, clamar por liberdade.

    Outros valeram-se dos quadrinhos, do humor ou dos recursos tecnológicos da comunicação de massa para também abrir um debate sobre a defesa do meio ambiente, das causas sociais, fazer severa crítica à corrupção na vida pública e discutir outros problemas nacionais.

    Foi em meio a tudo isso que Glauco Pinto de Moraes, gaúcho de Passo Fundo, nascido em 1928, já aos 40 anos começou a expor individualmente. Na década de 1970, conhecido e respeitado, aqui e no Exterior (aplaudido, em especial, no Uruguai, Bélgica e Japão), participou com sucesso de crítica e de público das bienais internacionais de arte de São Paulo e, ainda, das festejadas edições do Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP).

    A série denominada “Locomotivas” é o seu trabalho mais conhecido, registra a significativa participação que Glauco Pinto de Moraes teve no movimento do hiper-realismo. A inteligente ocupação do espaço, o traço firme bem determinando as formas, as cores usadas com malícia sabendo valorizar a beleza dos volumes e, acima de tudo, a luz que ressalta a qualidade de uma apurada técnica são valores que se destacam na obra do artista.

    Na pintura de Glauco Pinto de Moraes se estabelece um impossível encontro entre o real e o imaginário, gerando a necessária curiosidade que nos faz sentir a emoção da arte. É como inventar algo ainda mais real do que a própria realidade, criando no espectador um estado mental no qual não há limite. Uma nítida provocação.

    Em 1977, Glauco Pinto de Moraes foi premiado pela Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), em razão da importância contemporânea de sua obra. Na II Bienal Internacional de Artes Plásticas de Havana, Cuba, em 1986, o artista foi homenageado com uma Sala Especial. Em fevereiro de 1989, Glauco Pinto Moraes começou a trabalhar na Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, como responsável pela Assessoria Especial de Artes Plásticas. Foi vice-presidente do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat), presidente da Associação Profissional dos Artistas Plásticos (APAP) e membro do Conselho Administrativo da Bienal Internacional de Arte de São Paulo.

    Glauco Pinto de Moraes morreu em maio de 1990, na cidade de São Paulo, aonde escolheu viver desde que saiu do seu Rio Grande do Sul. Sua morte foi real, sua obra também. Por isto continua vivo.

  • Mário Gruber - Entre o homem e o mito, o real e o fantástico: a arte

    Artista de grande talento, inquieto pesquisador, homem sempre em busca de paixões, um ser angustiado por uma opção político-ideológica que, à margem da vida, criou sonhos de liberdade, paz e justiça social.

    Março de 1927... Na China os burgueses do Kuomintang, em ação inesperada, fecham sindicatos, colocam o parceiro PCC na ilegalidade, prendem os comunistas. Na Rússia, Stalin, decepcionado, mergulha no revisionismo e disputa com Trotsky o comando bolchevique. No Brasil, depois de cruzar o país, a Coluna Prestes cai e seu comandante, o comunista Luís Carlos, exila-se na Argentina.

    Mário Gruber Correia nasce em Santos, litoral de São Paulo, em 31 de maio do mesmo ano, filho de um típico casal burguês. Ninguém seria capaz de estabelecer ligação entre o menino e os fatos nacionais e internacionais. Muito menos, que ele viria a ser um engajado comunista e grande artista plástico.

    O HOMEM

    Mário foi criado na Praia de José Menino, ainda deserta e com vegetação. Essa paisagem solitária e bucólica inspirou os traços iniciais. Mas, nem tudo era suave e belo como em seus desenhos. Com o início da II Grande Guerra, os filhos dos japoneses da Colônia da Ponta da Praia, com os quais brincava, foram presos e tirados dali com os pais.

    No início dos anos 1940, conhece Arrigo Battendieri que lhe apresenta a argila e ensina a esculpir. Também conhece Nelson Andrade, com quem viria a compartilhar o atelier de pintura. Seus primeiros trabalhos artísticos são, por ironia, as cabeças de Thomas Jefferson e Abraham Lincoln. Faz estudos de quadros de Visconti, Bonington e Sisley. Começa a pesquisar gravura em metal.

    Antônio Cândido se interessa pelo artista e o leva ao crítico de arte Sérgio Milliet. As portas de São Paulo abrem-se ao jovem Mário Gruber. Em 1946 ingressa na Escola de Belas Artes; logo abandona tudo e vai para as ruas pintar a vida  o ensino acadêmico não deve cercear a liberdade. Expõe gravuras no "Clubinho", do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), então importante polo cultural.

    Milliet o convida para a exposição "19 Pintores", na Galeria Prestes Maia. Conquista o 1º Prêmio de Pintura. Jurados: Lasar Segall, Anita Malfatti e Di Cavalcanti. Motivado pelo sucesso, estuda gravura com o mestre Poty. Na mesma época, trabalha com Di Cavalcanti em grandes paineis, e começa a expor fora de São Paulo.

    Em 1948, bolsista do governo francês, vai estudar na École Nationale Supérieure des Beaux-Arts, em Paris. Trabalha com Portinari, executando murais. Viaja pela Europa e descobre Rubens, Goya, Rembrandt. Casa-se com Lea Novaes, tem dois filhos: Gregório (também pintor) e Paulo Fernando. Volta ao Brasil e vai para Santos, onde cria o Clube da Gravura (depois Clube de Arte).

    A ARTE

    Em 1953, a convite de Pablo Neruda, Gabriela Mistral e Diego Rivera, é delegado brasileiro ao I Congresso Continental de Cultura, no Chile. No final de 1954, separa-se de Lea. Seus trabalhos percorrem o mundo em várias exposições, conquistam prêmios e entram para acervos de grandes museus aqui e no Exterior. Mario estabelece relação com a Arquitetura, criando murais sob encomenda de renomados profissionais da área, como Vilanova Artigas.

    Conhece a socialite Cecília Helena Décourt, sua aluna na FAAP, com quem se casa em 1962. Passa a viver e um ambiente sofisticado que contrasta com o comunismo, um conflito permanente. Dizem que sofreu por nunca ter sido preso nos anos da ditadura militar, embora tenha resistido e abrigado perseguidos pelo DOPS.

    Em 1965, Rubem Biáfora dirige o documentário "Mário Gruber", filme premiado no Brasil, Alemanha e itália. De 1973 a 1982, em diferentes endereços, tem ateliers em Paris. Trabalha também em Olinda e Nova York. O artista fez vários murais no Brasil e outros países. Em 1982, direção de Nélson Pereira dos Santos, é realizado o filme "A Arte Fantástica de Mário Gruber". Nessa mesma época apaixona-se pela decoradora Giuliana Michelino, com quem vive até a morte.

    Foi um dedicado investigador, que alcançou apurada técnica. Mário, por suas infindáveis pesquisas de matérias-primas e experiências psicotrópicas (usava LSD), criou um caminho próprio do qual foi o pioneiro no Brasil: realismo fantástico. Em sensível metalinguagem, fez uma ruptura com os padrões culturais europeus do passado. Há, na sua inovadora criação, o mesmo rigor estético, mas, também, claras influências africanas e ameríndias. Suas obras têm um olhar erótico e debochado, livre dos limites impostos pela inflexibilidade da arte clássica. Em seus personagens do povo, revelados pela preocupação comunista em dividir riquezas, mesclam-se realidade e fantasia.

    O MITO

    Mário foi além de si mesmo na determinada busca da perfeição, como homem e como artista. Era um ateu de fé inabalável em suas crenças. Pai duro e intransigente, colega considerado chato pelo repetitivo discurso político e cobrança de posições. Ao colocar sua ideologia acima de tudo, escondeu a ternura que lhe movia na mais fraterna defesa do semelhante.

    Sua temática teve ponto alto no figurativo, que pelo caráter fantástico salta das telas. São meninos pobres, robôs, anjos, personagens do carnaval, magos, jogadores de futebol e outras imagens, como peixes e balões, todos sempre retratados com a força de suas racionalidades, mostrados com a luz de uma palheta rica em cores inventadas. Um traço mais que livre, capaz de delinear sentimentos nunca revelados. Algumas de suas figuras atarracadas pela opressão trazem a grandeza daquilo que gritam em nome da liberdade, paz e justiça social.

    Mário Gruber morreu em 28 de dezembro de 2011, em uma Casa de Repouso na periferia de São Paulo. Deve estar em algum lugar do universo fazendo suas deliciosas sopas e o melhor mousse de chocolate jamais experimentado pelos deuses. Mas, com certeza, agora saboreado pelo "Muleque Cipó", sua mais emblemática criação. Mario Gruber está feliz... Finalmente.

    Ricardo Viveiros, para a "Revista Abigraf", em novembro de 2012.
  • Portinari - Justiça seja feita ao pintor do Brasil

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    O mais consagrado artista plástico brasileiro de todos os tempos, Cândido Portinari, no centenário de seu nascimento, tem a importância resgatada na oportuna releitura de sua vida e obra. A pintura de Portinari é pura realidade nacional, suas telas e painéis denunciam as desigualdades sociais e o horror da violência.

    RICARDO VIVEIROS (ABCA)

    Segundo dos 12 filhos de Giovanni e Domenica, modestos imigrantes do Vêneto, norte da Itália, Cândido Torquato Portinari nasceu no dia 30 de dezembro de 1903, numa fazenda em Brodósqui, Estado de São Paulo. “Pequenininha, duzentas casas brancas de um andar, no alto de um morro espiando para todos os lugares”, descreve Portinari. Os pais plantavam café, ele brincava naquele pequeno grande mundo de cores e formas marcantes, “lugar arenoso no meio da terra roxa cafeeira. Imenso céu azul circula o areal. Milhares de brancas nuvens viajam”. Observador, o menino Candinho ficava impressionado com os pés dos lavradores: “Pés disformes. Pés que podem contar uma história. Pés semelhantes aos mapas, com montes e vales, vincos como rios”. Pés que, tempos depois, seriam marcas de sua arte e contariam ao mundo a dura realidade brasileira.

    Portinari cursou apenas o primário, mas sua infância foi rica em aprendizagem. “Eram belas as manhãs frias, na época da apanha do café, e delicioso o canto dos carros de boi transportando as sacas da colheita. A luz do sol parecia mais forte. Era somente para nós. Sonhávamos sempre, dormindo ou não. À noite, deitávamos na grama ao redor da igreja e, de barriga para cima, ficávamos vendo as estrelas e sonhando. Um perguntava ao outro o que desejava ser — as respostas eram ambiciosas: um desejava ser rei, outro general, aquele dono de circo”. Portinari descobriu sua vocação muito cedo, quase ao acaso. Desenhou um leão numa de suas aulas, foi um sucesso. Não teve mais tranqüilidade, passou a ilustrar capas de provas, cartazes, trabalhos escolares. Tempos depois, chegaram pintores para trabalhar na igreja, e o menino Candinho foi pintar estrelas no fundo do altar. O sonho se tornava realidade.

    A TRAJETÓRIA

    Portinari, aos 15 anos, vai para o Rio de Janeiro e se matricula na Escola Nacional de Belas-Artes. Três anos depois, vende sua primeira tela “Um baile na roça”. Ano após ano, vai sendo premiado nas edições do “Salão Nacional de Belas-Artes”. Em 1928, conquista o “Prêmio de Viagem ao Estrangeiro”. Segue para a França. Visita Itália, Espanha e Inglaterra. Pinta pouco pesquisa muito. Mergulha em melancolia, saudade de Brodósqui. Portinari refletiu sobre sua pintura. Voltou ao Brasil, distanciou-se da Escola Nacional de Belas-Artes, sobreviveu com trabalhos sob encomenda (o que lhe amargurava), mas, principalmente, buscou aperfeiçoamento artístico.

    Em 1931, expõe retratos sob novos critérios: personifica rostos, simplifica volumes, valoriza tons e matizes. Foram diversas e contrastantes as fases de Portinari. Mesmo incluindo-se os discutíveis retratos, sua arte sempre foi maior. No cavalete ou nos murais, sua pintura comprometida com a realidade brasileira, de qualidade, tornou-se exemplo de Modernismo, só comparado à obra de Picasso. O trabalho de Portinari dialetizou a força dos elementos populares, uniu técnica perfeita a um vigoroso estilo, resultando um expressionismo de alta qualidade.

    Mas foi um personagem popular de Brodósqui, o “Palaninho”, que mudou a vida e a arte de Portinari. “Bigode empoeirado, ralo e com algumas falhas; e só tem um dente. Usa umas calças brancas feitas de saco de farinha de trigo e ainda se nota o carimbo da marca da farinha. Embaixo, ele amarra as calças com palha de milho para não apanhar lama — não usa botina nos dias de semana. Usa paletó escuro listrado, com uma golinha muito pequena e quatro botões: — três pretos e um branco”, descreve o pintor. Na verdade, o choque cultural com a Europa, levou Portinari de volta às origens.

    Estava em Paris, vestia roupas elegantes, freqüentava lugares sofisticados, discutia literatura e, no fundo, sentia-se tal e qual “Palaninho”. Foi no Velho Mundo que o artista descobriu sua missão: “Daqui fiquei vendo melhor a minha terra — fiquei vendo Brodowski como ela é. Aqui não tenho vontade de fazer nada. Vou pintar o Palaninho, vou pintar aquela gente com aquela roupa e aquela cor”. E pintou. Em 1935, em Nova Iorque - EUA, participou da “Exposição Internacional de Arte Moderna” do Carnegie Institute, com a tela “Café”, obtendo menção honrosa. Sua arte conquista espaço na América e no mundo.

     RESGATE

    Foram quase cinco mil obras executadas pelo pintor, desde simples desenhos até complexos murais. Portinari está em museus, edifícios públicos, igrejas, monumentos, livros, coleções particulares no Brasil e inúmeros países. Seus afrescos na Biblioteca do Congresso em Washington - EUA e no edifício-sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque – EUA, são considerados marcos referenciais da arte mundial.

    Embora filiado ao Partido Comunista, ativista político (chegou a estar exilado no Uruguai), artista respeitado e premiado internacionalmente, Portinari até hoje é criticado por alguns como tendo sido o “pintor oficial” da Revolução de 30 e do Estado Novo, períodos de ditadura das mais repressivas da História do Brasil. O presidente Getúlio Vargas, embora contrário à ideologia do pintor, rendeu-se à qualidade de Portinari e o contratou para trabalhos em edifícios públicos. Mas, como disse o insuspeito escritor Graciliano Ramos, “Portinari era um indisposto a transigências”. Portanto, sua importância ímpar na arte como sua conduta exemplar na vida, não devem ser questionadas.

    Cândido Portinari, que morreu em 6 de fevereiro de 1962 vítima de intoxicação pelas tintas que usava, há cerca de 10 anos vem sendo tema de uma série de eventos em todo o País e no Exterior, promovidos pelo seu filho, João Cândido, que trazem aos nossos dias, seu pensamento, sua vida e sua obra. Justiça seja feita ao “Pintor do Brasil.

    Afinal, como disse o poeta Carlos Drummond de Andrade: “Foi em Portinari que conseguimos a nossa expressão mais universal, e não apenas pela ressonância, mas pela natureza mesma do seu gênio criador, que ainda que permanecesse ignorado ou negado, nos salvaria para o futuro”.

  • Rubens Ianelli - Linha, Cor, Luz: Sonhos!

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    Primeiro ele desenha o esboço, depois cria o quadro. Ou, então, o que mais gosta: olha a tela branca e não pensa, liberta a emoção e pinta sem pretender nada, apenas deixando que tudo flua como a música de quem sabe tocar um violino sem partitura. Interpreta a sinfonia da emoção.

    Nos anos 1950 não havia muitas oportunidades para ser artista plástico, sobreviver da arte era muito difícil. Arcângelo Ianelli, por exemplo, só vendeu o primeiro quadro depois de 20 anos de trabalho. Passando pela galeria onde expunha um senhor adquiriu certa tela e, ao final da mostra, o artista foi entrega-la e receber o pagamento. Ao chegar à casa do colecionador, descobriu que havia morrido...

    Rubens Vaz Ianelli, nasceu em 22 de abril de 1953, filho de Arcangelo e Dirce. Ele pintor, ela dona de casa. Pais responsáveis, desejaram que o filho fosse médico, carreira de sobrevivência mais garantida. Vocacionado e talentoso para a arte, e não apenas pelo DNA familiar, Rubens primeiro optou pela Arquitetura, caminho intermediário entre o sonho e a realidade. Quando bem pequeno, até pensou em ser farmacêutico ao brincar com vidrinhos nos fundos de uma antiga farmácia de manipulação. O envolvimento com a mística das linhas, cores e o brilho da luz marcaram sua infância, definiram seu futuro. Mas, não sem antes deixa-lo experimentar a vida como ela é.
    O pai famoso sempre o incentivou para o bem. Por outro lado, talvez irônico excesso de zelo, nunca o ensinou nada de arte. Como o destino tem seus truques, os restos de telas e tintas jogados no lixo por Ianelli deram ao curioso menino a oportunidade de conhecimento artístico. Aluno do tradicional Colégio Dante Alighieri, foi lá que Rubens mostrou as primeiras obras e conquistou os primeiros prêmios.

    OS SIGNOS

    O verdadeiro ponto de partida para uma sólida carreira está em 1962, quando o pai retorna de viagem ao Peru trazendo cerâmicas e tecidos. Aquelas peças de origem primitiva, inspiradas na arte pré-colombiana, foram impactantes no despertar de seus dons. O menino passou a fazer esculturas em barro e entalhes em madeira, adquiridos por vizinhos e amigos.
    Em 1964, quando Ianelli ganhou Prêmio de Viagem no Salão Nacional de Arte Moderna, a família seguiu para a Europa em um navio cargueiro da Lloyd Brasileiro. Rubens obteve conhecimento internacional. Em cada porto do trajeto, visitava museus e galerias. Na cabine transformada em atelier, o pai registrava as imagens da viagem.
    Na Europa, alugaram um carro e um trailer e percorreram o continente por dois anos. Rubens descobriu o auge da arte moderna, encantando-se por algumas de suas origens: os italianos Giotto, introdutor da perspectiva na pintura, e Piero Della Francesca, outro inovador que usou a geometria ainda no final da Idade Média. E também conheceu o contemporâneo: Miró, catalão surrealista, e Paul Klee, suíço naturalizado alemão, famoso por seus experimentos usando apenas linha e cor. Nessa época, o menino fez desenhos à caneta e à bico-de-pena.
    Tudo isso, na volta ao Brasil, levou Rubens a um estilo próprio e muito especial, que não se subordina às escolas e tendências. Com apurada técnica e plena emoção, o artista ressalta o valor do traço seguro, do uso harmônico da cor e do favorecimento da luz em um conjunto de ações de inédita poética musical em temas ricos de emoção. Consolida-se um excelente desenhista, pintor e escultor em várias técnicas: nanquim, carvão, grafite, pastel, guache, óleo, aquarela, extrato de nogueira, madeira, pedra, metal.

    A LINGUAGEM

    No final da década de 1960, quando o regime instaurado após o Golpe Militar de 64 recrudesce, Rubens sofre a repressão política e substitui o figurativo pelo geométrico. Começa a expor em salões e a conquistar prêmios. Deixa a faculdade de Arquitetura, ingressa no movimento estudantil de combate à ditadura. No início dos anos 1980, ao mesmo tempo que desenvolve colagens com temática política entende que não há lugar para mais de um Ianelli na arte; e já havia o tio Thomaz... Está instaurado o conflito: como crescer além do pai famoso?
    Resolveu estudar Medicina. Formou-se, obteve mestrado em Saúde Pública. Exerceu a profissão ao longos de mais de 20 anos, clinicou junto aos povos indígenas da Amazônia. Viajou toda a América Latina, viveu em países sob conflito revolucionário. Em 2001, o Brasil redemocratizado e homem de boa vontade que é, Rubens superou as vezes nas quais, de maneira míope, ignoraram a qualidade de seu trabalho e o colocaram apenas à sombra do pai.
    Da mesma maneira que aprendeu arte sozinho  desde adolescente descobriu no fundo do quintal de casa como montar um chassi, esticar a tela, usar pinceis, tintas e vernizes  também soube retomar seu ofício de artista plástico e alcançar respeito e sucesso com láureas e trabalhos em importantes acervos no Brasil e no exterior. A série Cidades é um dos pontos altos de sua instigante obra. Rubens empreende viagem aos mais longínquos territórios da memória, revelando paisagens com pertinente virtuosidade de metáforas e alegorias.
    Há no trabalho do artista um lúdico diálogo entre penumbra e luz, cores claras e escuras, sempre conduzido por um traço que estabelece um fio da vida. Uma visão onírica é latente em sua obra. Pode-se imaginar, perfeitamente, cada habitante dessas cidades e o que pensam, fazem em seus sótãos e porões. Rubens Ianelli é um médico da arte, receita sonhos e propõe saúde intelectual.

    Ricardo Viveiros para a Revista Abigraf, em junho de 2012.
  • Rugendas - O viajante que retratou o romântico Brasil do séc. XIX

    "Você sabe que não gosto de pintar, mas o trabalho que recebo agora é mais agradável, e às vezes, ameno. As viagens têm a vantagem de nos obrigarem a estudar continuamente e a conservar os olhos bem abertos"

    (Trecho de uma carta escrita por Rugendas à sua irmã Luisa, em 31 de março de 1832)

    No contexto dos trabalhos produzidos pelos artistas/viajantes que passaram pelo Brasil colônia, em especial os trazidos pelo holandês Mauricio de Nassau (Eckhout, Post) ou os que vieram com a Missão Francesa de 1816 (Taunay, Debret), pouco se pode comparar ao que realizou o alemão Johann Moritz Rugendas. Do naturalismo à sociologia, passando pela documentação histórica, Rugendas foi, incontestavelmente, o mais importante cronista do Brasil romântico do século XIX. Ele não gostava de pintar, preferia desenhar.

    Mas, exerceu com excepcional qualidade os dois ofícios, além de ser um excelente gravador. Herança genética, dedicação aos estudos e "olhos bem abertos" para uma explosão de imagens, um imenso horizonte de formas e cores que se descortinou a sua frente. Rugendas conheceu um Brasil ecologicamente perfeito, intocado exceto pelos curiosos como ele que chegavam para descobrir a sua alma ainda não revelada.

    ROMANTISMO

    Alguns especialistas afirmam que o Romantismo não esteve presente na arte brasileira dos Anos Oitocentos. Não é certo. Prova disso está na passagem pelo País, nesse mesmo século, de artistas como Rugendas. Em sua primeira visita ao Brasil (1822 a 1825), ele realizou trabalhos em Neoclassicismo, como podemos observar nas belas figuras de índios, de negros e de europeus que desenhou em preto e branco. Depois de um período inicial urbano, Rugendas penetrou nas florestas brasileiras e se deixou envolver pela paisagem tropical, pelas cores intensas que foram dando tons marcadamente românticos aos temas que retratou. Rugendas é considerado o mais importante entre os pintores desse movimento que retratou/documentou o Novo Mundo.

    Alguns estudiosos mais entusiasmados com a obra de Rugendas o classificam, de maneira equivocada, como pré-impressionista. Na verdade, é mesmo difícil fugir ao magnetismo de suas cromáticas paisagens, transbordando emoção em cada traço. O exótico das paisagens tropicais, à época, não fez sucesso em seu próprio país e no resto da Europa. Outros "viajantes" do Velho Mundo, cientistas e artistas, acabaram colocando dúvidas sobre a realidade das imagens apresentadas por Rugendas.

    Muitos acreditavam que o artista, inebriado pela riqueza do que via, por vezes introduziu detalhes nas obras para lhes dar um toque a mais de magia e de beleza. Essa pecha acompanhou o artista até o final de sua vida, aumentando-lhe o descrédito com uma obra que lhe encomendou o soberano alemão Maximiliano II, sobre o descobrimento da América por Cristóvão Colombo — uma tela em grande formato que Rugendas não conseguiu concluir e, ainda, foi acusado de contratar pintores auxiliares para realizá-la.

    Verdade ou lenda, hoje pouco importa. Rugendas deixou um autêntico acervo artístico com desenhos, gravuras, óleos de absoluta qualidade. O conjunto de sua obra, em especial os trabalhos feitos no Brasil e no México, constitui-se no mais importante documento sobre as primeiras décadas do século XIX na América Latina.

    A TRAJETÓRIA

    Rugendas nasceu em 29 de março de 1802, em Augsburg, Baviera, sul da Alemanha. Membro de uma família de artistas — quatro dos quais passaram à posteridade como pintores e gravadores —, iniciou sua carreira como aluno do próprio pai, então diretor da escola de arte e desenho local e proprietário de uma editora. Aos quatro anos, em contato com desenhos de temas históricos que o pai fazia para os livros que editava, Rugendas começou a demonstrar seu talento para a arte. Depois de estudar em Munique, com apenas 19 anos de idade foi indicado para trabalhar com o diplomata russo-alemão, acreditado no Brasil, barão Georg Heinrich von Langsdorff, um apaixonado pelo naturalismo. Langsdorff estava na Europa à procura de um exímio desenhista para integrar sua expedição pelo interior do Brasil, que seria realizada sob os auspícios do czar da Rússia.

    Langsdorff era proprietário de terras na Serra da Estrela, região norte da cidade do Rio de Janeiro, na qual recebia, costumeiramente, cientistas de várias partes do mundo. Já haviam passado pela fazenda "Mandioca", entre outras personalidades, Saint-Hilaire e von Martius. Foi por indicação de um conhecido da família, o barão Karwinski, botânico perito em temas brasileiros, que Rugendas conseguiu o emprego na expedição de Langsdorff.

    O jovem artista possuía o perfil para o posto: jovem, saudável, talentoso, formação excelente e não convencional. O contrato de trabalho foi assinado entre os dois e garantia passagens de ida e de volta, estadia paga integralmente, além de honorários anuais de mil francos franceses. Em troca, Rugendas se comprometia com Langsdorff a desenhar tudo o que lhe fosse solicitado durante a expedição, sendo esses trabalhos propriedade do barão — embora, o artista pudesse copiá-los e publicá-los desde que com o prévio consentimento do contratante.

    O BRAZILIANIST

    Rugendas não se adaptou ao estilo violento de Langsdorff, especialmente no trato com os escravos. Os dois tiveram várias discussões até que, em meio à expedição, em Minas Gerais, Rugendas abandonou o projeto, passando a viajar por conta própria, pagando as despesas com retratos que fazia para fazendeiros, políticos e religiosos.

    De volta à Europa, em 1825, em Paris, lança o livro "Viagem Pitoresca pelo Brasil" (muito melhor ilustrado do que escrito). Na mesma época, conhece e faz concreta amizade com o naturalista Alexander von Humboldt, um dos maiores expertises em América Latina. Essa relação será definitiva para Rugendas, já que Humboldt foi seu maior incentivador, defensor e protetor por toda a vida.

    Rugendas ilustrou inúmeros livros do naturalista, para isso viajando novamente por vários países da América Latina. Mostra dessa amizade pode ser vista nas cartas trocadas entre eles, que se encontram na seção de Manuscritos da Biblioteca Estatal do Patrimônio Cultural Prussiano, em Berlim, Alemanha.

    Johann Moritz foi o último e o mais importante artista da família Rugendas, morreu em Weilheim, Alemanha, em 29 de maio de 1858, aos 56 anos de idade. Para o Brasil, mesmo que "melhorando" a realidade em suas imagens, o artista deixou obra de importante significado. Além dos registros de uma época, a qualidade do trabalho é inquestionável. Rugendas abriu caminho para uma legião de estrangeiros também se apaixonarem pelo nosso "País tropical, bonito por natureza".

    Ricardo Viveiros, para a revista "Batch", em maio de 2013.