Carlos Perktold

Este articulistatinha porvolta de dez anos de idade quando esteve pela última vez na Estaçã Ferroviária Central de Belo Horizonte. Ia, junto com minha mãe e irmão, receber meu pai que voltava de viagem, chegando pelo "Vera Cruz". Lembro-me de ter esperado por ele algum tempo dentro do prédio e de ter passeado pela sua plataforma. Durante anos, ainda criança, passava pela praça, via o belo prédio, achava grande demais a escultura em homenagem aos inconfidentes mineiros que ainda está à sua frente e, sem nunca mais ter entrado ali, achei quetinha perdido de vista a sua beleza interior. Imaginei que o menino de então não tinha a sensibilidade ainda desenvolvida para perceber e registrar a grandiosidade do acabamento que hoje o emociona. Durante alguns anos, office-boy de empresa de BeloHorizonte, eu atravessava o túnel que, passando sob os trilhos, liga o primeiro prédio da estação ao segundo e saía na Rua Sapucaí, indo em direção aos escritórios da Rede Ferroviária Federal ou ao Bairro da Floresta, encurtando caminho.

Julgando que somente quem fosse passageiro da velha locomotiva ia até dentro dele, nunca mais voltei à plataforma do antigo edifício e nem assisti a qualquer passageiro comprando passagens nas bilheterias que ainda estão lá, embelezando e produzindo um encanto não encontrado nos prédios modernos. Voltei em dezembro de 2005 para uma nova visita a tudo que vira antes: prédios, plataformas, bilheterias e túneis, quando Angela Gutierrez abriu os portões para a inauguração do Museu de Artes e Ofícios, instalado naquela velha estação ferroviária e o que vi me fez regredir anos e parar naquele dia no qual meupai chegava de viagem. Procurei pelo menino que fui, pelos meus pais, pelomeuirmão e pelo Vera Cruz. Todos estavam ausentes. O Vera Cruz não existe mais. Meu pai e irmão faleceram e minhamãe se surpreenderá ao ler essas linhas nas quais eles são lembrados. No lugar daquela criança, perdida num passado longínquo, se apresentou o adulto, vendo que toda a insensibilidade que eu julgava ausente no infante de então, estava registrada naminha memória e me emocionei com tudo que vi, senti e me lembrei.

A primeira visão foi da Rua da Bahia, vista da Praça da Estação, a rua na qual tudo de importante da capital mineira acontecia, uma autêntica linha reta a ser percorrida pelos "carros de praça", velha nomenclatura dos atuais táxis, todos estacionados no pátio em frente da estação, esperando passageiros importantes de outros estados para se dirigirem ao Palácio da Liberdade em consulta ao governo mineiro. As outras visões foram do próprio prédio restaurado, brilhando no seu esplendor da nova pintura, e o reviver do acabamento primoroso, como se estivéssemos nasua inauguração em 1922, com requintes arquitetônicos a surpreender a moçada de hoje, acostumada à simplificação do pós-moderno.

Reencontrei o velho túnel, ainda ligando os mesmos dois prédios, mas agora os elementos arquitetônicos daqueles dias de minha infância estavam tão diferentes que, se não fossem aquelas velhas lembranças do menino, eu não os reconheceria e nem eles a mim, tão grandes foram nossas mútuas alterações. As minhas foram causadas pelo tempo e as deles por Angela Gutierrez e sua equipe de museográfo, museóloga, arquitetos, engenheiros, restauradores, carpinteiros, marceneiros, eletricistas, pintores, bombeiros, pedreiros e serventes. Alguns desses profissionais sabiam que suas atividades seriam homenageadas nos prédios que renasciam nas mãos de todos. Outros tinham apenas uma idéia do que Angela pretendia. Mas todos sabiam que dali sairia um museu: O Museu de Artes e Ofícios, com um acervo tão especial que o faz único no mundo e, naqueles anos de restauração, acervo ainda desconhecido pelos trabalhadores.

O conjunto de mais de duas mil peças, todas doadas por escritura pública ao IPHAN, foi garimpado e adquirido ao longo das vidas de Flávio Gutierrez e de sua filha e sem qualquer pretensão para formar um museu. O que os levou a acumular peças tão significativas de nossa cultura foi a paixão pelas Minas Gerais e a certeza de estarem preservando patrimônio cultural que tendia a desaparecer. A brasilidade e a beleza das peças foram outros itens decisivos para levar pai e filha ao padecimento quando queriam algum objeto e não o conseguiam e à mais completa alegria quando o adquiriam. Esses são sentimentos privativos de quem é colecionador apaixonado e inexplicáveis a quem não tem este amor avassalador. Grande parte dos objetos foi primeiramente adquirida pelopaique, viajando por Minas e pelo Brasil, via, comprava e, apesar de empreiteiro, os transportava com dificuldade e os guardava, iniciando um acervo que agora, catalogado, organizado e distribuído por um esplendoroso museu, dele Dr. Flávio se orgulharia.

A filha aprendeu com o pai o amor pelas coisas de nossa terra, desenvolveu a sensibilidade e, depois do seu falecimento, fez crescer o conjunto, compondo o acervo exposto neste novo museu de BeloHorizonte. O objetivo de ambos era garimpar pelos cantos do Brasil e, em particular, de Minas Gerais, as peças de profissionais com atividades manuais dos séculos XVII, XVIII, XIX e XX e colecioná-las. O tempo passou, a coleção cresceu e o conjunto, pela qualidade e quantidade, perdeu a característica de mera reunião de objetos cujo regalo fosse privilégio apenas da família. O conjunto é composto de ferramentas para confecção artesanal de vários objetos e utilidades, tais como selas, roupas, panelas, instrumentos, balanças, facas, navalhas, moendas e mais tudo que o leitor imaginar sobre as atividades extintas ou em vias de extinção: o comerciante tropeiro, ourives, carpinteiro, marceneiro, entalhador, seleiros, ceramistas e cozinheiras, daquelas muito especiais que pelejavam com a lenha molhada em fogão de catre. A colecionadora percebeu que os objetos compunham um literal acervo de um museu e que, restaurados ou não, mantinham uma unidade em torno de velhas profissões de um Brasil que não existe mais faltava um local para abrigá-los. Prestigiada culturalmente e sabedor da determinação da colecionadora, o poder público lhe ofereceu alguns prédios. Ela recebeu também tentadoras ofertas de outros estados, lhe apresentando um mundo de vantagens para levar seu acervo para fora de Minas. Nem os iniciais e oferecidos prédios em BeloHorizonte e nem as traiçoeiras ofertas de outros estados lhe interessaram. O acervo era em sua maior parte mineiro, o pai havia construído sua vida aqui, suamãe era mineira e ela se sentia belorizontina. A procura pelo local para abrigar o rico acervo e se tornar um novo museu em BeloHorizonte continuou.

Todo colecionador sabe que a peça, a pintura, o desenho ou a escultura procura o seu dono. Quando se vêem, ficam apaixonados e, a partir daí, pode demorar um tempo enorme para que a união dos dois ocorra. Há uma certa semelhança com casamentos que demoram demais para acontecer, mas que, quando acontecem, o sentimento é de que a aliança não ocorreu antes por causa das vicissitudes da vida. Estas, como se sabe, da mesma forma que nos une, nos separa e que reencontro de tesouros afetivos não é sinônimo de amores anacrônicos.

O prédio da Estação Central era utilizado como escritório da Cia. Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), empresa estatal que, como o nome indica, administra os trens metropolitanos das capitais brasileiras. Angela Gutierrez certamente o conhecia e ele a ela. Mas a interessada pretendente não se lembrava dele e ele, semi-abandonado, maltratado pelo tempo e sem forças para expor toda sua beleza, ficou aguardando ser descoberto. Antes de sua escolha definitiva, Angela Gutierrez visitou outros interessados, descartados de imediato ou a médio prazo. Num certo dia, de repente, num átimo, como ocorrem naquelas paixões avassaladoras, ele foi oferecido, ela se lembrou dele, imaginou-o restaurado e a paixão foi fulminante. Quase quatro anos foram necessários para que o resultado desta trajetória de luta, garra e determinação, exposta em BeloHorizonte desde o dia 14 de dezembro de 2005, se concretizasse e passasse a ser o novo orgulho da Capital mineira.

Desde sempre aprendemos que o capital somado ao trabalho gerava riquezas. A partir de 1989, com a queda do Muro de Berlim e o desaparecimento do comunismo, o capital descobriu que poderia viver sozinho e o trabalho ficou desprestigiado neste novo mundo globalizado. A primeira emoção do acervo do Museu de Artes e Ofícios é aquela nos remetendo à humanização deste hoje desvalorizado labor e que ainda resiste nos corações e mentes de tantos. É este também o primeiro motivo inconsciente a nos comover quando entramos nele. Todos temos um antepassado distante que está ali representado, seja por um único formão de escultor ou entalhador, seja a velha faca cortadora de couro para confecção da sela ou ainda uma máquina usada para tratamento dentário que hoje mais parece um instrumento de tortura. O Museu de Artes e Ofícios, a sua idealizadora e o seu acervo respondem a todas as perguntas íntimas e inconscientes dos visitantes, descendentes daqueles profissionais, nunca formuladas por nenhum deles, mas que, encontradas as respostas nas peças ali presentes, sentem que aquelas perguntas estavam dentro de cada um e, tal como agora, perguntas e respostas se encontram no interior do belo Museu. Por isso é raro encontrar um visitante que, mesmo desconhecendo as profissões de seus ascendentes, não se emocione vendo as peças expostas, todas representantes de um passado inconsciente registrado no seu coração de brasileiro. A maioria do público, mais de trezentas mil visitas até a data da publicação deste texto, é constituída de gente simples, profissionais humildes, estudantes, além de profissionais de alto nível e intelectuais que valorizam e sabem o queele representa agora e, mais ainda, representará no futuro.

Mas nele há outros motivos para nos emocionar. A irretocável modificação arquitetônica, projetada por Pierre Catel, um francês apaixonado pelo Brasil há anos, é o que mais chama a atenção pela elegância, discrição, austeridade, graça e – surpresa maior - pela magia de não ter alterado o essencial. Paradoxalmente, tudo está como antes e tudo foi modificado. Por se tratar também de uma importante estação do metrô de BeloHorizonte, ninguém pensou em transferi-la, imaginando que metrô e museu pudessem não combinar. Monsieur Catel sabe que não é verdade. Por isso, colocou paredes de vidros espalhadas pela estação de tal forma que o visitante vê a locomotiva levando os seus passageiros e eles têm o privilégio de freqüentarem um museu dentro de uma estação (ou seria o contrário?). Como se sabe, esse tem sido privilégio apenas de nova-iorquinos, londrinos, moscovitas ou parisienses. Pois agora, nesta lista, acrescente-se o belorizontino.

Angela Gutierrez conheceu Pierre Catel na França há mais de vinte anos, quando esse museógrafo dirigiu os trabalhos de modificações do Hôtel de Dieu, um antigo hospital psiquiátrico na cidade de Bouane. Local de misérias humanas, o artista francês o alterou de tal forma que nas suas transformações floresceu o humanismo que talvez tenha faltado no local enquanto foi hospital. "O que ele fez lá foi emocionante e eu me apaixonei pelo seu trabalho", declara Angela. Muitos anos depois, ela descobriu que a sua missão nesta Terra de Santa Cruz era expor os invejáveis acervos da família em museus e dividir com os públicos brasileiro e estrangeiro o privilégio de ver tantas peças. Para isso convidaria Pierre para fazer o projeto do seu primeiro: o Museu do Oratório, na cidade de Ouro Preto, uma reserva de santidade.

O visitante que nunca esteve na Estação Central se surpreenderá de início com a sua entrada, algumas peças distribuídas pelohall e um balcão de farmácia colocado na altura ideal para atendimento do público visitante, com suporte de vidro de cristal, provocando um contraste entre o antigo e o moderno que encantam o local e a peça. É inevitável olhar para o alto e se deslumbrar com o pé-direito e a visão do segundo andar, todo protegido com grade de grosso ferro belga com volutas inimagináveis nos dias de hoje. Ao entrar e percorrer a plataforma, o espectador se deparará com dezenas de peças protegidas por bem cuidadas caixas de vidro e o conteúdo de um nicho sobressai de forma – perdoe-me o clichê – espetacular. Trata-se de uma balança de ferro do século XVIII, adquirida em ferro-velho de Salvador, Bahia, e servia naquele século para pesar escravos. A peça contém ainda rica renda esculpida em ferro com o brasão da família real portuguesa. Se a assertiva de que toda peça procura seu dono está correta, o leitor fique certo de que todas elas também têm uma história e a história da aquisição dessa balança passa por um caminho digno de um conto literário que um dia Angela Gutierrez, por certo, escreverá. Hoje essa antiga peça sabe de sua trágica beleza e, por isso, se sente envergonhada peloque foi e fez, mas ao mesmo tempo se sente recompensada pelo privilegiado lugar de sua definitiva aposentadoria, depois de ser desprezada e esquecida em ferro-velho. O visitante a encontrará no alto daquele nicho especialmente construído para prendê-la perpetuamente como punição de macabro ritual do qual ela foi a peça principal no altar desabonador de tantos de nossos ancestrais. Agora o seu peso é no engrandecimento da beleza do museu e na certeza de que o seu passado de trágica senhora não será esquecido.

Siga em frente e desça os degraus para atingir o túnel que percorri quando criança. É lindo. Ao passar porele, saiba que trilhos, locomotivas e passageiros estão sobre sua cabeça. A seguir encontrará nova escada para atingir o segundo prédio. A visão do metrô passando enquanto vemos o acervo faz um contraste entre o industrial e o artesanal com que é impossível não se comover. Tudo neste andar é importante, mas chamo a atenção do leitor para uma cozinha mineira do século XVIII, original em todas suas peças, inclusive num raro fogão de catre, assim chamado pelasua construção especial cuja base de peças de barro lembra uma cama e quetinha dupla função: de cozinhar os alimentos durante o dia e à noite espalhar o seu calor aquecendo a casa. Como se sabe, o inverno do século XVIII era diferente do atual e o frio deste país tropical naquela ocasião mais parecia o rigoroso inverno europeu. Sem exagero, pode-se postular a existência das quatro estações do ano em vinte e quatro horas naquele século, privilégio que ainda perdura em algumas cidades históricas como Tiradentes, Ouro Preto e Diamantina.

O primeiro integrante da família Guiterrez chegou a BeloHorizontejunto com a inauguração da Capital. Chamava-se Leonardo Gutierrez. Era um jovem engenheiro espanhol, bisavô de Angela, cônsul honorário da Espanha e que acreditou no Brasil e em Minas em particular. Visionário, comprou a primeira fazenda localizada a cinqüenta metros da Avenida do Contorno, cercania na qual se acreditava seria a capital mineira, criando o bairro Gutierrez, uma referência na capital. Constituiu família e transmitiu para seu filho, Plácido Gutierrez, o gosto pela arte e a cultura. Plácido viveu a maior parte de sua vida no Rio, onde descobriu novos interesses e transmitiu sensibilidade e cultura para seus descendentes. Angela sabe que herdou a cultura da família espanhola, acrescida daquela dos italianos ascendentes da mãe Tomasi, e que, somados ao seu próprio despertar pela arte, resultou naquilo que ela é: uma mulher do mundo, valorizando nos seus museus o que ainda resta de humanismo neste mundo globalizado.

Perguntada sobre qual é o próximo a receber o seu outro acervo e altruísmo, ela responde com a gentileza, simplicidade e generosidade de quem nasceu para ser imortal naquilo que deixa quando "se encanta" fisicamente: se a Prefeitura Municipal da Cidade de Tiradentes, a Universidade Federal de Minas Gerais e a Fundação Rodrigo de Mello Franco quiserem, dôo meu acervo de 260 imagens de N.S. de Sant'Ana, restauro o antigo prédio da cadeia daquela cidade e nele crio o Museu de Sant'Ana. Depende deles. Até Nossa Senhora apóia a idéia e se sentirá feliz em abençoar um prédioque, por certo, já foi amaldiçoado pelos seus antigos habitantes. Como a proposta já foi feita, espera-se das autoridades envolvidas a favorável decisão do desejo da cidade de Tiradentes e de Angela.

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