Carlos Perktold

O Minotauro é, na mitologia grega, o fruto da traição de Pasifae, esposa de Minos, com o Touro de Creta. O infante gerado é um monstro, metade homem, metade touro, cuja deformação causa rejeição e repulsa a Minos, seu pretenso pai. Este, envergonhado do filho, o aprisiona no Labirinto construído por Dédalo, composto de ziguezagues infinitos e sem saída. De compleição de homem forte e de touro viril, seu pasto eram sete rapazes e sete moças inocentes, escolhidos todo ano entre os atenienses. O sacrifício dos jovens foi a punição de guerra perdida, entre Atenas e Creta, imposta por Minos que, por influência da mulher, se transformou de um rei sábio e justo em um déspota exigente e cruel. Quando foi enviado o terceiro pagamento consecutivo, Atenas remete, junto com mais treze sacrificados, o jovem e heróico Teseu. Este parte com sua clava, tomada de Perifetes, a quem derrotara anos antes. Sua missão de bravo guerreiro era derrotar o Minotauro e sair do Labirinto vitorioso. Antes de sua partida, Ariadne se apaixona por ele e lhe fornece um novelo de lã com o qual ele marca seu caminho de volta e de lá sai triunfante deixando o Minotauro derrotado. Este era o mito apaixonante de Picasso.

O Labirinto de Dédalo está para a mitologia grega assim como o Inconsciente e o Id estão para a teoria freudiana. É o lugar para onde empurramos e aprisionamos nossos incômodos e monstruosidades, nossas paixões violentas e perigosas; lugar onde somos meio touro e meio homem, querendo usufruir das benesses das duas condições, sem arcar com os ônus impostos pela Cultura. Modificados no tempo, somos, ocasional e alguns até com freqüência, minotauros à procura de um pasto humano no qual possamos nos abastecer e garantir nossa sobrevivência anual através do sacrifício de inocentes que podem ser a mulher, o filho, o subalterno, a empregada ou o cachorro mais próximo de nossos pés.

Todo artista se projeta na sua obra. Guignard era humano, lírico, terno e gentil no trato pessoal e colocou essas qualidades nos seus quadros. Matisse da mesma forma. Picasso não foi diferente. Expôs sua virilidade na obsessão pelas corridas de touro, esse seu eterno alter ego, na companhia de mulheres deslumbrantes que foram pasto para esse Minotauro de Barcelona. Se para Freud tudo era sexual, para Picasso tudo é erótico, sensual, viril. Sua obra foi construída sobre o macho resolvido na pulsão genital, término do desenvolvimento sexual postulado pelo austríaco e temperado com perversões que fazem a delícia do voyeur, encantam o espectador e enriquecem os colecionadores.

Não há nenhum artista que contenha em si e na sua obra tanto da teoria psicanalítica e do Mito de Teseu quanto Picasso. É a mais freudiana das criaturas. Sua produção foi tanta e de tal intensidade e força, que é possível pensar na sua obra associada com sua necessidade, tão exaltada, de produzir seus milhares de orgasmos. Françoise Gilot, ex-mulher de Picasso, deixou registros biográficos da relação de ambos que nos fazem pensar nele como parte daquele grupo de pessoas que, com freqüência, faz delas seu pasto particular.

Vale aqui o registro, psicanaliticamente fundamental, de que o sobrenome pelo qual Pablo é conhecido pertence a sua mãe, geradora desse Minotauro moderno à espera de um Teseu que o libertasse do seu particular e pessoal labirinto, de onde ele enviava toda a sua magistral produção. Felizmente para a história da Humanidade e da arte, não houve Teseu na história de Picasso. Por isso ele continuou sua trajetória mitológica, dispensando os moços e devorando as mulheres de sua vida, todas elas vistas e pintadas de início como flores, em seguida transformavam-se em pássaros e iam se deformando até serem excluídas de seu mundo.

Tudo isso pôde ser comprovado pela monumental exposição Picasso Erótico, um título redundante, que ficou no Museu Jeu de Paume de Paris até 20 de maio de 2001. O prédio foi criado e utilizado para um jogo de punhos, daí seu nome, que é uma espécie de “avó” do squash atual. Era ali que os nobres e os aristocratas franceses se reuniam para praticar o jeu de paume, no qual um meio-cone era fixado ao punho do jogador, em substituição à raquete atual, e uma bola era arremessada à parede. Logo depois da segunda guerra mundial, o governo francês reorganizou sua pinacoteca e esse prédio passou, desde então e até 1986, a ser a residência oficial dos impressionistas. A partir daquele ano, todo o acervo foi transferido para o Musée d’Orsay e o prédio do Jeu de Paume passou a ser utilizado para exposições itinerantes.

Constituída de um acervo monumental emprestado dos Museus Picasso de Barcelona e de Paris, de alguns museus nacionais franceses e do Canadá, a exposição é grandiosa e mais todos os adjetivos disponíveis. Tem material para todas as perversões sexuais sem nunca cair na vulgaridade. É a mais fina iguaria para o voyeur. São centenas de desenhos inéditos, aquarelas e muita, mas muita gravura, o que causa um certo desapontamento para quem conhece os acervos do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, do Art Institute de Chicago, dos Museus Picasso de Barcelona e de Paris. A pergunta que fica é: onde estão os óleos maravilhosos do pintor Picasso? São pouquíssimos os expostos, dez ou doze no máximo, todos majestosos, mas para o tamanho da exposição é uma quantidade ínfima e uma falta lamentável. A exposição é quase só de gravuras, desenhos e aquarelas. Tão grande é a quantidade desse material que se pudesse imaginar alguém de cultura no mundo que não conhecesse Picasso e a visitasse, teria a certeza de estar defronte de um gravador e desenhista maravilhoso e não teria idéia de quanto ele era pintor.   

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