Carlos Perktold

 Yara é como Minas: são muitas. A primeira é representada pela brilhante oradora quando fala sobre a arte e a sua história. Com dicção de fonoaudióloga, pronuncia cada palavra com segurança, construindo frases que nos encantam pela associação das idéias. Por isso, se o leitor acha que tem algo para aprender na especialidade dela e tem a humildade e interesse de ouvi-la, prepare-se para alegrias intelectuais. A grande dama do mural e da gravura em Minas tem um pensamento seqüencial fácil de seguir e é armadilha certa para a sedução espiritual.

Albert Dürer, além de sua primeira paixão pictórica, foi o assunto de sua dissertação quando se candidatou a professora adjunta da UFMG, na Escola de Belas Artes fundada pouco antes. Yara o vê como o elo entre a Idade Média, que acabava, e a Renascença, que começava. Dürer foi também o modelo de artista meticuloso aplicado ao desenho detalhado das gravuras, pelas quais ela sempre foi interessada. Professor é, em geral, lembrado por ex-alunos agradecidos pelo que aprenderam. É assim com ela quando se encontra com algum deles e ouve comentários elogiosos de sua atuação como mestra. Sorte deles, porque hoje, aposentada, ela não leciona mais. Atenção!

Aposentada apenas pela UFMG porque, fora dela, é a trabalhadora de sempre a sentir que já deu sua contribuição como instrutora e que, com a arte contemporânea dominando uma boa parte do mercado, constata que há pouco espaço para gente que sabe desenhar e pintar, mesmo como professor. Yara sente-se constrangida com a difundida informação de que há alunos de arte julgando desnecessário o aprendizado da técnica do desenho e chocada com a má qualidade de parte dos trabalhos da novíssima geração. Esta não julga necessário conhecer os segredos não contados em escolas e que somente a vida nos confidencia na luta diuturna, quando o artista se forja, saindo à procura do seu desejo. A arte contemporânea, apresentada em salões e vários museus pelo mundo hoje, como se sabe, não requer conhecimentos de equilíbrio e ritmo da composição. Em outras palavras, com ela, ficou fácil ser mau artista.

Tudo na vida tem prazo e Yara, entendendo isso, aprendeu a não perder tempo. Assim, a incansável artista, quando necessário, se levanta às cinco horas da manhã para terminar o esboço começado ontem ou reiniciar o mural interrompido à meia-noite do dia anterior. Nas suas caminhadas diárias, pensa na solução da difícil composição em andamento e cuja resposta pode surgir no trajeto de andarilha ou até dentro do carro, enquanto aguarda o trânsito congestionado. Ela pensa em arte, pintura, desenho e composição na mesma proporção que o cidadão comum desse mundo globalizado pensa em dinheiro e sexo. Viajante de várias jornadas pelo mundo e pelo Brasil, navega sempre com o propósito de visitar museus ou exposições. Se o tempo é curto, procura neles apenas uma ou duas obras para ver, e sai de lá como se tivesse se servido da melhor sobremesa. Se o tempo é longo, degusta cada quadro nos corredores do Louvre ou do Metropolitan, do MOMA ou do D´Orsay. Mas suas andanças não são apenas pela Europa ou Nova Iorque. Ela já trilhou toda Minas Gerais, aproveitou das facilidades oferecidas e enfrentou as dificuldades de cada local, em viagens cujos resultados se tornaram célebres séries de pinturas a incluir o Vale do Jequitinhonha, o Vale do Rio Doce, a Serra do Cipó e o Vale do Tripuí, região de Ouro Preto. No Jequitinhonha, expôs um emocionante humanismo na simplicidade de nosso povo, refletido nas figuras humanas e nos seus artesanatos. Um pote, um jarro, flores locais e uma senhora a trabalhar constituem tudo o que Yara precisa para esboçar, em rápidos desenhos acrescidos de anotações, o que será uma tela definitiva tão logo chegue ao seu atelier. As citadas regiões oferecem paisagens exuberantes que ela, a partir de 1990, imortalizou em telas disponíveis em pinacotecas espalhadas por Minas e pelo Brasil. Parte do casario de Tripuí existe hoje apenas nessas telas, desaparecido pela implacabilidade do tempo, dos elementos e do desinteresse político de preservá-los. Em todos os locais visitados, ela procura pelo que é mais mineiro e, com certeza, é a artista que mais se interessou por tudo que é nosso. Yara é consciente de que a busca do desejo começa na aldeia do artista. Sua carreira se inicia como aluna do mestre maior da gravura no Brasil, Goeldi. Com ele, ela ratificou o que já havia aprendido com Dürer: as emoções humanas podem ser expostas em delicados detalhes na madeira, em especial a solidão humana que o mestre de Belém imortalizou. Yara, muitos anos depois, na sua série de xilogravuras “Adão, por que pecaste?”, coloca no papel o desespero da criatura que transgredira a maior das proibições. Suas incisões na madeira registram a ira de Deus e colocam Adão e o espectador, co-partícipe bíblico do pecado, perplexos diante do futuro fora do Paraíso.

O artista, quando não está incorporado com o gênio criador, leva uma vida de cidadão comum, come, veste, vai à feira, consome e tem desejos capitalistas.E é por viver tudo isso que Yara, percebendo a falta de interesse dos colecionadores, galerias, decoradores e do mercado de arte sobre as obras confeccionadas em papel, desistiu das gravuras. Azar dos colecionadores e do mercado. Ela passa, a partir dessa percepção comercial, a transpor para a tela o conteúdo mineiro e a forma universal com tinta acrílica. Perdemos a gravurista e ganhamos a pintora; em ambos ficou o talento da artista. Um dos seus primeiros trabalhos nessa nova técnica foi o mural “A Inconfidência Mineira”, fixado no saguão do prédio da reitoria da UFMG. Parte da história de Minas é contada em cores chapadas com a técnica da gravura, grandes espaços em branco sobre o suporte, como pausas na música ou a respiração dos elementos da composição. O resultado final é um painel grandioso pelo conteúdo histórico a marcar Minas e o Brasil e pela forma como foi confeccionado. Restaurado na gestão da reitora Ana Lúcia de Almeida Gazzola, segue sua trajetória de obra definitiva colocada no melhor dos lugares. Esta ressalva é importante na medida em que nos lembramos do painel “Tiradentes”, de Portinari, exposto durante anos na cidade de Cataguases e que, num certo dia, por falta de sensibilidade política e dinheiro (nessa ordem), foi vendido para o Governo de São Paulo, uma perda sempre lembrada e lamentada.

Yara, a muralista, não é a artista de apenas um painel tour de force. Ela percorreu a história de Minas através de várias obras incluindo o Rio São Francisco, as nossas Bandeiras e os Bandeirantes, o Ciclo do Ouro, nossas tradições católicas de santos e procissões, festas do Divino, juninas e os Congados, todos registrados também em quadros de pequenos formatos. Há ainda alguns murais confeccionados com o cimento como suporte, fixados em paredes externas de prédios públicos, ou ainda aqueles em madeira e telas, espalhados pelas entradas de edifícios particulares construídos por uma geração que começa a dar importância à cultura e à arte. Em todos eles há sempre a preocupação em expor nosso Estado, nossa gente, flora, montanhas e pedras, rios e lagos, formadoras de um acervo que fazem de Yara uma das maiores produtoras de arte do país.

A aluna da segunda geração do mestre Guignard reconhece a importância dele e o tanto que aprendeu com o imortal de Ouro Preto, sobretudo a aplicação da apaixonante técnica da transparência, na qual Guignard era um mestre. Nas telas de Yara a transparência pode estar presente nas roupas de Bárbara Heliodora ou na águas do São Francisco. Dos discípulos de Guignard apenas ela, Maria Helena Andrés, Sara Ávila e Vicente Abreu utilizaram melhor essa técnica nas suas próprias obras. Yara declara que, dos alunos do mestre fluminense de nascimento e mineiro de coração, a sua geração foi a que mais aproveitou as lições de Guignard. “A primeira geração foi constituída de alunos de estratificação social elevada na Belo Horizonte de então. A nossa veio das classes média e pobre ou ainda de filhos de imigrantes; precisávamos aprender e produzir. Além disso, vivíamos momentos políticos históricos importantes. Éramos preocupados com a justiça social e tínhamos entre nós intelectuais do porte de Guy de Almeida, Edmur Fonseca e Vicente Abreu, todos de esquerda, nos ajudando a forjar uma opinião política sobre o país. Se se tinha sensibilidade, era impossível não ter influência deles”. A presença desse pensamento pode ser vista também nas obras de seu contemporâneo e amigo, Álvaro Apocalypse, retratando nossa gente com sua musicalidade.

Yara Tupynambá faz parte do grupo de artistas que sabe o que é corte de ouro, se utiliza dele e sabe da sua importância na composição pictórica. Assim, a percepção do olhar preparado descobre a preocupação dela de colocar cada elemento no lugar pré-determinado, daí nascendo o equilíbrio da composição que, ocasionalmente, se sobrepõe à espontaneidade, de tal forma que o espectador se engana com a simplicidade exposta. Na frente da tela branca o artista enfrenta o mesmo desafio que o escritor diante da lauda em branco. Na sua geração de colegas há artistas tão consagrados quanto ela: Chanina, Vicente Abreu, Álvaro Apocalypse, Sara Ávila, Wilde Lacerda, Solange Botelho e tantos outros. Todos e cada um individualmente são a presença do artista que produz por paixão interior e nunca como forma de catarse na procura de soluções de dificuldades psíquicas. Yara é ainda a artista consciente de seu valor, de sua história e do seu legado que um dia deixará. Provas dessa asserção são seus registros arquivados em pastas organizadas de tal forma que seus biógrafos não terão dificuldades em localizar cada detalhe de sua vida e obra. E há por fim a Yara Tupinambá, incansável guerreira da vida, desde jovem certa de que procurava realizar o seu desejo de imortalidade. Por isso ela constituiu um patrimônio cultural que a nenhum mineiro é lícito ignorar.

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