colunista-carlos-perktoldCarlos Perktold

Há uma longa e dolorosa estrada que o homem percorreu para chegar ao requinte da criação de um trabalho artístico e este ser reconhecido como tal. Talvez tenham sido de 20 a 40 mil anos. Cavernas no interior da França comprovam que alguns habitantes daquela área tinham talento e nos legaram pinturas nas suas paredes que, durante milhares de anos, ninguém apagou e até hoje nos deixam perplexos pela qualidade artística dos registros. Muitos habitantes daquele lugar, contemporâneo ou não dos artistas, sentiram que havia algo diferente nas figuras e compreenderam que, se não havia ainda a nomenclatura "obra de arte", compreenderam que os registros mexiam com a sensibilidade ainda tão primitiva de cada um. Eram bonitos e, sem se preocuparem com a posteridade, deixaram-nas como foram criadas e, talvez, para que fossem descobertas milhares de anos depois.

Por certo, essas obras deram suas contribuições ao desenvolvimento intelectual de boa parte da humanidade de hoje. Houve sempre uma admiração e um respeito a elas, e, por certo, um desejo recôndito de que elas fossem as mensageiras da posteridade de uma época que ninguém nem pensava nisso. Viajando no tempo, acrescentando de alguma forma uma pitada de sensibilidade a cada espectador, as belas figuras francesas ajudaram a criar o país de Proust.

Se uma obra de arte tem uma trajetória assim, como é possível ainda existir uma pergunta como a do título acima? Pois ela foi feita e respondida com um sonoro "pra nada" por colecionadores apaixonados pela pintura e até por artistas amigos deste articulista. A pergunta é complexa, exige múltiplas respostas e essa singeleza "pra nada" é simples demais. Além disso, é preciso que esses mesmos apaixonados e colecionadores que responderam dessa forma, expliquem o que é o "nada".

A arte, no passado e com a ausência da fotografia, serviu para deixar registros históricos de retratos de reis, rainhas, princesas, dos integrantes das monarquias e seus herdeiros, de certa parte da burguesia e, com raras exceções, de certos personagens citadinos. O grande público teve pouco contato com ela e vive-versa, por que a boa arte sempre foi cara e privilégio da velha nobreza e de estratificação social privilegiada. Quem viveu no passado histórico vivia cheio de necessidade e não pensava em registros históricos familiares que a fotografia popularizou. A imensa maioria das pessoas que viveu e vive nessa última condição, não teve naquela ocasião e, com freqüência, nem tem hoje a oportunidade de desenvolver sua sensibilidade visual. Estavam e estão preocupados em satisfazer as necessidades do dia a dia e a arte é desejo puro. Por certo, nestes últimos cem anos foram criados museus com acervos que facilitam a vida dos interessados e as freqüentes exposições e visitas neles atestam que os interessados de hoje têm mais chance de desenvolver seus olhares que nossos antepassados.

Com a chegada do capitalismo, a extinção das monarquias e a popularização da pintura a contar dos meados do século XIX, a arte tornou-se mais freqüente entre a burguesia e as pessoas cultas. Ela deixou de ser privilégio dos nobres. As encomendas e vendas avulsas de belos quadros a partir do impressionismo não era mais privilégio dos reis. Boa parte do público europeu compreendeu as vantagens de ter uma boa tela em casa. Compravam-nas por que eram bonitas e encantavam os conhecedores. Nenhum comprador pensava em guardá-la por gerações para ser vendida cento e cinqüenta anos depois por vários milhares de dólares e seus proprietários não se preocupavam com prestigio social por possuí-las. Nem seus autores pensavam ou se preocupavam com a posteridade. Nada surpreenderia mais a Manet, Monet, Gauguin, Van Gogh ou seus contemporâneos a informação de que cada uma de suas obras é vendida hoje por milhões de dólares. Imaginem então o que sentiriam os pintores que pintaram pouco, foram descobertos séculos depois de mortos ou que trabalharam a vida inteira para a Igreja Católica, deixando acervo que, de tão belos, nos faz pensar na salvação do homem, mesmo com tanta crueldade contemporânea, se soubessem do quanto elas valeriam intelectual e financeiramente.

Nos nossos dias, a arte serve para várias coisas, até pra ganhar dinheiro, asseguram artistas iniciantes que fixam preços iguais aos de outros colegas consagrados, como se aqueles tivessem certeza do seu sucesso no futuro. O que vemos com freqüência, são jovens pintores e escultores se imaginando emissores de títulos negociáveis e lucrativos no futuro. Comprar seus trabalhos significa "investimento". Eles acreditam que uma exposição de suas obras é uma espécie de oferta pública de ações, ou uma IPO, como são conhecidos esses lançamentos de ações no mercado financeiro, um investimento lucrativo para o futuro. A maioria das vezes não é. Dos 123 "artistas" da celebrada geração 1980, frequentadores do Parque Lage do Rio de Janeiro, apenas doze ainda estão em evidência, se profissionalizaram e vivem da venda de seus quadros ou esculturas. O restante desapareceu no horizonte. Por certo, a arte serve para garantir o sustento dos seus executores e a realização duplamente do desejo daqueles que são os escolhidos dos deuses e os felizes colecionadores capazes de separarem o bom do ruim e, com isso, cresceram intelectualmente e ganharem dinheiro.

Se uma pintura é produto de um sujeito sem talento e é pendurada na parede de uma sala, em breve e com um mínimo de sensibilidade do seu proprietário, ela vai ficando "pesada" no ambiente e, ao contrário daquelas figuras nas cavernas francesas, incomoda o espectador de alguma forma que ele não consegue explicar e, somente depois da sua retirada, percebe-se que um pequeno quadro sem arte pode se tornar um meteoro de dezenas de toneladas, piorando a cada dia e aumentando o seu peso. Enquanto isso, uma pintura de um talentoso artista, daqueles que sabem o que é uma composição equilibrada e com ritmo, que criou e foi descobrindo suas próprias cores, que conhece o que é ponto de fuga, número de ouro e sabe aplicar as cores complementares, torna-se na mesma parede um elemento que ajuda na leveza do lugar. Ela é como um bom texto contendo mensagens subjacentes que deixam o leitor ou o espectador encantado com o que lê ou ainda uma sinfonia na qual vamos descobrindo novos acordes a cada audição.

 Para esse articulista, a arte serve para melhorar as pessoas, frase com a qual Candido Portinari concordava e fazia questão de espalhar pelo Brasil afora. Por "melhorar", não quer dizer que se colocarmos um psicopata para fazer sucessivas visitas a um museu contendo peças importantes, seu diagnóstico será alterado e ele se tornará um ser sensível e tocante. Psicopatas não têm salvação, mesmo se acamparem no Louvre ou no D´Orsay e ali viverem uma vida. Uma casa com paredes nuas e música ruim têm menos chance de fazerem seus moradores se tornarem mais sensíveis, mais humanos que aquelas nas quais cada nova visão nas paredes contendo bons trabalhos ou a casa na qual a música rica em acordes modifica lentamente o ouvinte ou o espectador, acrescentando em cada nova mirada ou na descoberta de uma canção harmoniosa uma nova e pequena migalha de humanismo que se transformará em um banquete humanístico depois de três ou quatro gerações. A arte melhora as pessoas, sim, a longo prazo. É essa sua principal função.

 (*) Psicanalista. Integra a ABCA e a AICA.

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