Mário Gruber - Entre o homem e o mito, o real e o fantástico: a arte

Artista de grande talento, inquieto pesquisador, homem sempre em busca de paixões, um ser angustiado por uma opção político-ideológica que, à margem da vida, criou sonhos de liberdade, paz e justiça social.

Março de 1927... Na China os burgueses do Kuomintang, em ação inesperada, fecham sindicatos, colocam o parceiro PCC na ilegalidade, prendem os comunistas. Na Rússia, Stalin, decepcionado, mergulha no revisionismo e disputa com Trotsky o comando bolchevique. No Brasil, depois de cruzar o país, a Coluna Prestes cai e seu comandante, o comunista Luís Carlos, exila-se na Argentina.

Mário Gruber Correia nasce em Santos, litoral de São Paulo, em 31 de maio do mesmo ano, filho de um típico casal burguês. Ninguém seria capaz de estabelecer ligação entre o menino e os fatos nacionais e internacionais. Muito menos, que ele viria a ser um engajado comunista e grande artista plástico.

O HOMEM

Mário foi criado na Praia de José Menino, ainda deserta e com vegetação. Essa paisagem solitária e bucólica inspirou os traços iniciais. Mas, nem tudo era suave e belo como em seus desenhos. Com o início da II Grande Guerra, os filhos dos japoneses da Colônia da Ponta da Praia, com os quais brincava, foram presos e tirados dali com os pais.

No início dos anos 1940, conhece Arrigo Battendieri que lhe apresenta a argila e ensina a esculpir. Também conhece Nelson Andrade, com quem viria a compartilhar o atelier de pintura. Seus primeiros trabalhos artísticos são, por ironia, as cabeças de Thomas Jefferson e Abraham Lincoln. Faz estudos de quadros de Visconti, Bonington e Sisley. Começa a pesquisar gravura em metal.

Antônio Cândido se interessa pelo artista e o leva ao crítico de arte Sérgio Milliet. As portas de São Paulo abrem-se ao jovem Mário Gruber. Em 1946 ingressa na Escola de Belas Artes; logo abandona tudo e vai para as ruas pintar a vida  o ensino acadêmico não deve cercear a liberdade. Expõe gravuras no "Clubinho", do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), então importante polo cultural.

Milliet o convida para a exposição "19 Pintores", na Galeria Prestes Maia. Conquista o 1º Prêmio de Pintura. Jurados: Lasar Segall, Anita Malfatti e Di Cavalcanti. Motivado pelo sucesso, estuda gravura com o mestre Poty. Na mesma época, trabalha com Di Cavalcanti em grandes paineis, e começa a expor fora de São Paulo.

Em 1948, bolsista do governo francês, vai estudar na École Nationale Supérieure des Beaux-Arts, em Paris. Trabalha com Portinari, executando murais. Viaja pela Europa e descobre Rubens, Goya, Rembrandt. Casa-se com Lea Novaes, tem dois filhos: Gregório (também pintor) e Paulo Fernando. Volta ao Brasil e vai para Santos, onde cria o Clube da Gravura (depois Clube de Arte).

A ARTE

Em 1953, a convite de Pablo Neruda, Gabriela Mistral e Diego Rivera, é delegado brasileiro ao I Congresso Continental de Cultura, no Chile. No final de 1954, separa-se de Lea. Seus trabalhos percorrem o mundo em várias exposições, conquistam prêmios e entram para acervos de grandes museus aqui e no Exterior. Mario estabelece relação com a Arquitetura, criando murais sob encomenda de renomados profissionais da área, como Vilanova Artigas.

Conhece a socialite Cecília Helena Décourt, sua aluna na FAAP, com quem se casa em 1962. Passa a viver e um ambiente sofisticado que contrasta com o comunismo, um conflito permanente. Dizem que sofreu por nunca ter sido preso nos anos da ditadura militar, embora tenha resistido e abrigado perseguidos pelo DOPS.

Em 1965, Rubem Biáfora dirige o documentário "Mário Gruber", filme premiado no Brasil, Alemanha e itália. De 1973 a 1982, em diferentes endereços, tem ateliers em Paris. Trabalha também em Olinda e Nova York. O artista fez vários murais no Brasil e outros países. Em 1982, direção de Nélson Pereira dos Santos, é realizado o filme "A Arte Fantástica de Mário Gruber". Nessa mesma época apaixona-se pela decoradora Giuliana Michelino, com quem vive até a morte.

Foi um dedicado investigador, que alcançou apurada técnica. Mário, por suas infindáveis pesquisas de matérias-primas e experiências psicotrópicas (usava LSD), criou um caminho próprio do qual foi o pioneiro no Brasil: realismo fantástico. Em sensível metalinguagem, fez uma ruptura com os padrões culturais europeus do passado. Há, na sua inovadora criação, o mesmo rigor estético, mas, também, claras influências africanas e ameríndias. Suas obras têm um olhar erótico e debochado, livre dos limites impostos pela inflexibilidade da arte clássica. Em seus personagens do povo, revelados pela preocupação comunista em dividir riquezas, mesclam-se realidade e fantasia.

O MITO

Mário foi além de si mesmo na determinada busca da perfeição, como homem e como artista. Era um ateu de fé inabalável em suas crenças. Pai duro e intransigente, colega considerado chato pelo repetitivo discurso político e cobrança de posições. Ao colocar sua ideologia acima de tudo, escondeu a ternura que lhe movia na mais fraterna defesa do semelhante.

Sua temática teve ponto alto no figurativo, que pelo caráter fantástico salta das telas. São meninos pobres, robôs, anjos, personagens do carnaval, magos, jogadores de futebol e outras imagens, como peixes e balões, todos sempre retratados com a força de suas racionalidades, mostrados com a luz de uma palheta rica em cores inventadas. Um traço mais que livre, capaz de delinear sentimentos nunca revelados. Algumas de suas figuras atarracadas pela opressão trazem a grandeza daquilo que gritam em nome da liberdade, paz e justiça social.

Mário Gruber morreu em 28 de dezembro de 2011, em uma Casa de Repouso na periferia de São Paulo. Deve estar em algum lugar do universo fazendo suas deliciosas sopas e o melhor mousse de chocolate jamais experimentado pelos deuses. Mas, com certeza, agora saboreado pelo "Muleque Cipó", sua mais emblemática criação. Mario Gruber está feliz... Finalmente.

Ricardo Viveiros, para a "Revista Abigraf", em novembro de 2012.