Chtchoukine e os ícones da arte moderna

sergey schukin by dm. melnikov 1915 resize 94363Sergei I. Chtchoukine

Neste mesmo site, comentei que não se deve imaginar que, vivendo nem Paris entre 1860 a 1910, compraríamos uma montanha de obras de Monet, Manet, Matisse, Van Gogh, Picasso, Modigliani ou Gauguin e, com isso, ficaríamos ricos ou deixaríamos nossos netos e bisnetos milionários. Ou ainda que, viajando no tempo para a década de 1950, em Belo Horizonte, compraríamos vários quadros de Guignard com o mesmo objetivo. Pouquíssimas pessoas as comprariam afirmativa que ainda mantenho e que retiro parcialmente por que houve um russo industrial de tecidos que, a partir de 1897, orientado pelos marchands Paul Durand-Ruel e Vollard (sempre ele!) comprou mais de 150 obras dos impressionistas, neoimpressionistas e cubistas incluindo 50 óleos de Picasso, 38 de Matisse, 6 Cézanne, 16 Gauguin, vários Van Gogh, num total de 150 quadros de seus contemporâneos como Moret, Monet, André Derain e outros consagrados pelo tempo. As raras paisagens de Picasso estão na mesma coleção, junto com obras da fase azul e rosa, uma beleza ímpar e que deixa qualquer espetador apaixonado pelo espanhol.

Sergei I. Chtchoukine (1854-1936) (pronuncia-se Tchukine) era de uma dinastia de comerciantes e industriais russos riquíssimos e um visionário que sentiu prazer com o choque intelectual causado pelas pinturas naqueles anos. Iniciou sua coleção no final do século 19 e não parou de comprar até morrer em 1936. Antes do seu falecimento, declarou “se você encontrar alguma pintura que te cause um choque psicológico, compre-a”. Foi o que ele sentiu e fez, criando uma das coleções mais fantásticas do mundo, propriedade hoje do Estado da Rússia e em exposição na Fundação Louis Vitton, em Paris, até 20 de fevereiro de 2017, com o título de “Ícones da Arte Moderna”.

A oportunidade de ver obras nunca vistas pelo grande público ocidental é única, pois boa parte não se encontra nem mesmo reproduzida em livros ou catálogos daquelas artistas à venda na Europa ou aqui. As paisagens de Picasso são raras, pois o artista as pintou pouquíssimas vezes, mas estão na exposição, junto com dezenas de outras obras primas de qualidades avassaladoras. O colecionador tinha uma visão tão extraordinária de arte que ele próprio, além das compras, sugeriu e encomendou a Matisse a pintura de “A Dança”, pintada em duas versões com pequenas diferenças. A primeira é de 1909, está no Moma de Nova York e tem as cores mais pálidas, mas o mesmo ritmo contagioso da segunda versão de 1910, em exposição. Esta última mede 2,60 x 3,89 m e é mais fauvista, utilizando apenas azul, verde e vermelho puros. Sergei, de início, não gostou da ideia de ter mulheres nuas nas paredes de seu palácio. Sua sugestão era de pinturas com bailarinos, sem imaginar que elas poderiam ser pintadas nuas. Pediu então que as vestissem. O artista francês mandou novos estudos em aquarela e o russo caiu de paixão, aceitando “A Dança” como ela está hoje e como o pintor desejava.

Além dos amigos que riam de sua coleção e achavam “engraçadas” as peças cubistas, os jornais da época não pararam de falar mal dele, de Matisse e das suas obras e dos outros artistas admirados pelo russo. Sergei se manteve inabalável e o tempo consagrou seu bom gosto e opinião, além das obras prima.

A compreensão de que em Paris ocorria a mais completa mudança de paradigmas da pintura na história do mundo, fez do colecionador o mais importante mecenas de sua geração. Sua encomenda a Matisse não foi somente “A Dança”, mas a obra prima arrasadora de 1908 “Mesa Posta – Harmonia em vermelho”, pintada inicialmente em verde e alterada pelo arista com a aquiescência do cliente, encomenda feita para decorar o hall da escadaria de seu palácio.

Os quadros de Paul Gauguin são da sua produção do Taiti e trazem as mulheres nativas com a beleza sensual delas em cores múltiplas e formas que ele, descobrindo-as na Martinica, nunca mais as abandonou, se imortalizando nelas. Seus personagens pictóricos são, sobretudo, adolescentes taitianas pelas quais ele se apaixonou e se perdeu, morrendo de sífilis, o mal de seu tempo, que, sem medicamentos conhecidos na ocasião para esse diagnóstico, evoluiu para a psicose geral progressiva, matando o pintor com dores horríveis. Nada se percebe de suas dificuldades físicas nas pinturas. Pelo contrário. É a época que ele parece de bem com vida e demonstra toda sua felicidade nas cores que chocavam os inexperientes espectadores e deslumbraram o russo.

Não são apenas Picasso e Gaugin que estão no top da lista de artistas do colecionador. A exposição é imensa e abrange ainda esculturas e pinturas de Braque, do fiscal aduaneiro Rousseau, Paul Signac, Pissaro e todos aqueles que deixaram seus literais rastros na pintura francesa e influenciam artistas do mundo todo até hoje. A exposição é imperdível para quem visita Paris até fevereiro de 2017.