Nem tanto ao mar nem tanto à terra

 

Gostaria de chamar a atenção do leitor para uma questão que decorre de minha atitude crítica em face de certas manifestações da arte conceitual. Trata-se do seguinte: questionar um tipo de expressão que não se vale dos meios tradicionais da pintura ou da escultura, não significa estar aberto à aprovação de toda e qualquer obra ou tendência artística que utilize aqueles meios. Tal presunção é inteiramente descabida, mesmo porque tenho horror a todo e qualquer maniqueísmo; além disto, não me pretendo líder de uma cruzada contra a arte conceitual, duchampiana ou tendências afins. Pelo contrário, estou a todo momento refletindo sobre as questões atuais da arte e reconheço que a crise que se expressa nas obras derivadas do caminho aberto por Duchamp decorre de questões consubstanciais com o processo artístico contemporâneo. Não se trata, portanto, de uma farsa montada por falsos artistas com o propósito de engabelar o público.

Certamente, essas manifestações ocorrem num quadro complexo em que atuam tanto a legítima busca por um novo caminho da expressão artística como fatores outros, extra-artísticos e que atendem a interesses criados. No primeiro caso, considero que a atitude antiarte da geração dadaísta foi conseqüência de circunstâncias históricas (a 1ª Guerra Mundial) e do questionamento dos valores artísticos e de sua função numa sociedade que se industrializava velozmente. Quanto aos fatores extra-artísticos, trata-se de um fenômeno novo na história da arte, já que em nenhuma outra época a produção artística esteve de tal modo sujeita a injunções mercadológicas e midiáticas tão poderosas que deixam em segundo plano a própria obra de arte ou o que hoje pretende substituí-la.

Tais fatores não podem, no entanto, obscurecer o fato de que as expressões tradicionais da arte (pintura, escultura, gravura etc.) vivem uma fase crítica, de pouca criatividade e raros novos artistas a despontar. De fato, no Brasil pelo menos, afora os artistas consagrados naqueles gêneros, quase nenhum outro grande talento surgiu. Se é certo que, no campo da arte, tais fenômenos não podem ser explicados a partir de diagnósticos simplistas, por outro lado é difícil afirmar a vitalidade de gêneros artísticos que refletem tão pouca criatividade. Afinal de contas, a arte viva é a que manifesta criatividade e renovação. Lamentavelmente, não é isto que se observa no momento.

A carência de novos talentos e de obras notáveis conduz à valorização exagerada de obras medíocres, que aparecem ilusoriamente como a reafirmação da pintura, da gravura ou da escultura, beneficiando-se do vácuo criado pela também supervalorização das obras conceituais. De fato, a promoção das tendências tradicionais resulta num desserviço à verdadeira arte, não apenas porque subverte a ordem dos valores estéticos como porque nivela por baixo a exigência da crítica e do próprio público, que terminam ambos se contentando com a mediocridade.

Estas observações, que agora faço, não são gratuitas nem furto de simples especulação. Verifico que instituições de prestígio têm promovido ultimamente exposições de pintura, escultura, aquarela etc., de valor duvidoso, como se fossem arte de alta qualidade.
As razões para que isto ocorra são diversas e vão desde os sinais de esgotamento da arte conceitual (cada dia mais repetitiva, sem nem o impacto do começo) até a necessidade de preencher a programação dos numerosos espaços culturais que hoje proliferam nas grandes cidades brasileiras. A par disto, há também um outro fator, mais sutil, que decorre da crescente distância entre os chamados “curadores” e os gêneros tradicionais da arte. Muitos deles, desligados desses gêneros de arte, perderam a capacidade de apreender-lhes as qualidades e os defeitos. O mesmo ocorre com o público. Em suma, quero dizer que a boa arte nos ensina o que é a arte, enquanto a obra medíocre nos deseduca. Por isso mesmo, é necessário mais que nunca que se realizem, nesses espaços culturais, mostras de grandes artistas, dos mestres modernos, pois as suas obras hão de fazer com que todos nós (inclusive os curadores) voltemos a distinguir melhor os valores estéticos.

Tais afirmações, que talvez pareçam exageradas, são fruto de minha própria experiência. Durante os anos em que fiz crítica de arte para a revista Veja, dei-me conta, ao deparar-me com uma bela retrospectiva de Alfredo Volpi, do que era a boa e verdadeira pintura; é que, de tanto ver e escrever sobre pintura de qualidade sofrível, já estava eu abaixando o meu nível de exigência. Com mais razão, isto ocorre hoje em dia, quando as exposições de altas qualidades escasseiam.

Por tudo isto, são de muita importância iniciativas recentes que nos permitiram ver, por exemplo, no Paço Imperial, no Rio, uma impactante retrospectiva de Iberê Camargo; no MNBA, a densa mostra Duas Cidades, de João Câmara Filho (agora aberta no Recife) e um amplo panorama da pintura de Brennand, na sua bela Accademia, que acaba de inaugurar no Recife. Não menos significativa é a sala de gravuras de Gilvan Samico, parte da exposição Panorama da Arte Brasileira, realizada atualmente no Paço Imperial.