Talvez a mais significativa manifestação da vanguarda racionalista do começo do século 20 seja a arquitetura funcionalista de Le Corbusier e Walter Gropius. Diversamente do que ocorreu no campo da pintura e da escultura – onde o racionalismo é apenas estilístico e metafórico – na arquitetura ele se converte na funcionalidade da obra: a casa é uma “máquina de morar”.

 Em seus textos teóricos, a partir dos anos 20, Le Corbusier demole as velhas concepções arquitetônicas e urbanísticas ao mesmo tempo em que defende uma nova atitude em face das relações entre a arquitetura e o mundo moderno, tecnológico e dinâmico. O arquiteto deveria libertar-se da visão acadêmica que buscava no passado clássico e neoclássico o exemplo a ser seguido. Isto tudo era velharia, que nada tinha a ver com a nova idade da máquina. Em lugar dos muros espessos, dos cômodos escuros onde o sol não penetrava, da decoração artificiosa, defendia as estruturas ortogonais, leves, claras, abertas à luz solar. Uma arte do presente, da claridade e da saúde.

 Essas idéias influíram decisivamente sobre a arquitetura daquela época, repercutindo inclusive no Brasil, aonde vem Le Corbusier a convite do governo em 1936. Aqui, esboça um projeto para futura Cidade Universitária (que não foi aceito) e outro para a nova sede do Ministério da Educação e Saúde (hoje, Palácio Gustavo Capanema, no Rio). Oscar Niemeyer, que era, naquela época, um jovem arquiteto recém formado, aceita a lição do grande arquiteto mas modifica o projeto do MES e, poucos anos depois, concebe o conjunto arquitetônico da Pampulha (1942), que mudaria a linguagem da arquitetura do mestre, introduzindo nela a linha curva. Um outro discípulo de Le Corbusier foi um poeta pernambucano – João Cabral de Melo Neto – que adotou aqueles princípios de racionalidade, objetividade e clareza, como a base de sua poética. Mas eis que, em 1950, Le Corbusier – que se extasiara diante das curvas niemeyerianas da Pampulha – projeta a Capela de Ronchamp, contrariando tudo o que pregara até ali.

 Com seu teto negro, curvo e pesado, suspenso por paredes inclinadas, compactas, apenas vazadas por janelas maiores e menores, que mais parecem cavadas num muro medieval, a Capela de Ronchamp chocou os leigos e enfureceu os fiéis seguidores do mestre racionalista. Alguns, por razões estéticas, consideraram-se traídos em sua fé funcionalista, outros, por razões ideológicas, se sentiram traídos em seu agnosticismo. Corbusier praticara uma dupla heresia, como arquiteto e como ateu. Não foi ele que, ao ser convidado, pela primeira vez, a projetar a capela de Ronchamp, respondera: “Não posso construir para uma célula morta da sociedade”?

 Michel Ragon, em Le Livre de l’Architecture Moderne, parte desta resposta de Le Corbusier para afirmar que “sem fé na obra realizada, não pode haver grande obra”, acrescentando que, como a maioria dos arquitetos que constróem igrejas modernas não são católicos, essas igrejas parecem mais maquetes, cópias, ou mesmo, hangares. “A catedral é uma expressão da Idade Média, como o castelo é uma expressão da Renascença. A expressão de nossa época é antes a usina, a represa, o arranha-céu. Também a Unidade de Habitação Le Corbusier, em Marselha, está mais perto do espírito das catedrais que sua capela de Ronchamp”.

 Mas a crítica severa desta obra de Le Corbusier foi feita por Giulio Carlo Argan, o grande crítico italiano de arte e arquitetura. Pergunta que significa, na coerência interna da obra do arquiteto, esta construção tão diferente de todas as obras, que tem teto barroco e paredes lisas semeadas de janelas, no estilo que lembra o Neoplasticismo de Mondrian do tempo do Broadway Boogie Woogie. E eis que essas janelas se transformam em seteiras e parede cândida adquire a aparência de uma fortaleza. Para suprir a religiosidade que a capela não possui, o arquiteto lança mão de um recurso cenográfico: uma luz vermelha incandescente envolve o altar-mor. E conclui: “O erro de Le Corbusier é ter simulado uma fé que não tem. A igreja hoje será lugar de reunião e recolhimento, não um meio para exortar ao êxtase, com a ajuda de um bem calculado efeito de luz e de perspectiva cenográfica de planos e volumes”, afirma Argan. Trata-se de uma questão de princípio, que o crítico defende em face da “incoerência” do arquiteto. Já de minha parte, não vejo por que um artista deve submeter-se à coerência de sua própria obra, uma vez que isto o impediria de tentar novos caminhos e manter ativa sua criatividade. Esta opção é do artista, que pode adotá-la, como Morandi, ou desconsiderá-la, como Picasso. O que importa é a qualidade do que ele faz.

 Outra condenação a Le Corbusier, pelo mau passo, partiu do poeta João Cabral, que se sentiu traído em sua fé corbusiana. Foi ela que lhe possibilitara escrever os versos do célebre poema O engenheiro:

 “O engenheiro sonha coisas claras:

superfícies, tênis, um copo de água.”

 De fato, as idéias do arquiteto haviam mudado o rumo da poesia de Cabral que, ao conhecê-las, trocou o surrealismo irracionalista pela objetividade racionalista que lhe marcaria a obra, a partir de então. Sua crítica se manifesta no poema Fábula de um arquiteto, do livro Educação pela Pedra, onde diz que Le Corbusier “renegou dar a viver no claro e aberto” / “até refechar o homem: na capela útero”.

Se o leitor for ler (ou reler) o poema de João Cabral, verificará que, como a capela que ele condena, também está longe da límpida racionalidade que o arquiteto pregava e que o poeta praticou no poema O Engenheiro, a que me referi acima. A Fábula de um arquiteto é um poema de sintaxe difícil, caprichosa, que lembra o estilo gongórico ou barroco. Verifica-se, assim, que como o arquiteto, o poeta também mudara de estilo, mas sem o perceber.

 De qualquer modo, o impasse a que o racionalismo conduziu a arquitetura teve solução mais simples que aqueles com se defrontou a pintura: é que na arquitetura – arte essencialmente abstrata – prepondera a funcionalidade, enquanto na pintura – arte essencialmente figurativa – prepondera a representação do imaginário, que o racionalismo repele.